    
NPCIAS DE UMA NOITE

Digitalizao: Valria O.
Reviso: Paty

Melissa Martinez McClone
Ttulo original: The Wedding Lullaby



De uma marcha nupcial... a uma cantiga de ninar!
A socialite Laurel Worthington s encontrou o atraente milionrio Brett Matthews uma vez: no dia em que se casaram! Tratava-se de uma aposta... de um casamento que duraria apenas uma noite. Deslumbrada pela fantasia romntica, Laurel entregou sua virgindade ao doce e sedutor marido.
Brett duvidava que Laurel teria voltado a procur-lo se no tivesse precisado de ajuda. Ao saber que teriam um filho, ele props um casamento de verdade. Mas o que ele no sabia  que, daquela vez, Laurel no se contentaria com nada menos do que um casamento por amor...

PRLOGO

 Estou orgulhoso de mim  declarou Henry Davenport com um sorriso de satisfao.  Neste ano, eu me superei.
 Eu, mais do ningum, posso afirmar isso  retrucou Brett Matthews diante da capela Ninho do Amor, em Reno, no Estado americano de Nevada, onde bastava um homem e uma mulher se apresentarem para casar para a cerimnia ser realizada.
Henry era um playboy em toda extenso da palavra. No fazia nada na vida exceto assistir ao crescimento da fortuna que havia recebido como herana e que estava aplicada em um fundo de investimento. Em seu aniversrio, ano aps ano, seus amigos se reuniam para comemorar a data, primeiro de abril, tambm conhecida como dia da mentira. Nessas ocasies, duas pessoas da turma eram escolhidas para viver uma aventura idealizada pelo extravagante anfitrio em troca de um prmio. Naquele ano, a idia do aniversariante seria sortear um casal, em um jogo de dados, e promover o casamento naquele mesmo dia com anulao marcada para o dia seguinte.
Lanados os dados, Brett tirou um par de seis. A garota que tirou os mesmos nmeros tornou-se automaticamente sua noiva. Agora tudo que eles precisavam fazer era dizer sim.
Henry cuidou dos preparativos, desde a compra do anel para a noiva at o aluguel do terno para o noivo. Tambm se encarregou da reserva de um horrio para a cerimnia e da contratao de um advogado para estabelecer os termos do acordo com total separao de bens e para acompanhar os procedimentos de anulao.
No que a fortuna de Brett fosse fruto de herana como acontecia com os demais. Tratava-se de dinheiro ganho a custa de inteligncia, trabalho e muita perseverana.
 Ainda no  tarde demais para voltar atrs  Henry desafiou o amigo no ltimo instante.
A multa, caso o participante desistisse do jogo, seria de dez mil dlares a serem doados a uma instituio de caridade da escolha do aniversariante. O valor era propositalmente alto porque qualquer tipo de desistncia significaria fugir ao esprito da festa.
 Voc chegou longe  disse Henry e bateu no ombro do outro.
Era verdade. O objetivo de vida de Brett, desde criana, era provar s crianas ricas com quem havia crescido que ele no era apenas o filho da governanta dos Davenport. Naquele ano, graas ao convite de Henry para seu aniversrio, ele teve essa chance. Agora estava prestes a casar com Laurel Worthington, uma adorvel garota que era destaque frequente nas colunas sociais de Chicago.
Eles haviam se conhecido aquela tarde apenas, mas para Brett ela era perfeita. O tipo de mulher que sonhava para ter como esposa: bonita, refinada e bem-relacionada. Talvez pudesse convenc-la a namor-lo a fim de se conhecerem em vez de anularem o casamento sem se darem uma chance. O pastor se aproximou.
 Podemos comear?
Brett assentiu com a cabea e ele fez sinal para um msico que iniciou os acordes da cano Love Me Tender com sua guitarra. Cynthia Sterling, outra convidada de Henry, que havia sido escolhida para ser a dama de honra da noiva, deu o primeiro passo em direo ao altar.
 E sua ltima oportunidade para desistir - sussurrou Henry.
Brett o ignorou. Assim como ignorou o pulsar desenfreado de seu corao e as gotas de suor que lhe umedeceram a fronte ao ver Laurel desfilando pela nave, atrs da amiga, com um vestido de renda e cetim e um buqu de rosas vermelhas.
Nenhuma outra noiva lhe parecera mais bonita. Laurel era a mulher de seus sonhos. E ela estava lhe sorrindo, tmida, com os cabelos castanho-claros realados pela tiara de lantejoulas e pelo vu.
No topo do altar, ela lhe estendeu a mo e pousou os olhos azuis nos dele. Tudo que Brett desejou, naquele momento, foi esquecer que estavam vivendo uma farsa.
A mo de Laurel era delicada e macia. Ele a segurou com carinho e sorriu.
Ao menos por uma noite, ela lhe pertenceria!
CAPTULO I
Ela havia conseguido. Quase sem dinheiro e sozinha, percorreu quatro mil quilmetros para alcanar seu objetivo.
Laurel sorriu pela primeira vez aps um perodo de quatro meses. Estava to satisfeita consigo mesma que sentiu mpetos de rir alto. Olhou para o cu ao sentir algumas gotas de chuva carem em seu rosto. No devia estranhar. Oregon era conhecido por seu tempo chuvoso.
Permaneceu alguns instantes em tranquila contemplao, mas logo se obrigou a entrar no prdio. Em vez de molhada de chuva, Brett poderia pensar que ela andara chorando. O que era a mais pura verdade.
Mas seus dias de lgrimas estavam prestes a serem relegados ao passado. Havia muito a ser feito. No valia a pena se entregar  autopiedade. Era preciso seguir adiante. Com o queixo erguido, Laurel entrou na fortaleza de cimento e de vidro. Ali, em uma das salas, ela o encontraria. O pensamento a fez estremecer.
Ajeitou a ala da mochila no ombro e puxou a mala com rodinhas pela calada. Parecia incrvel, mas tudo que lhe restara de uma vida que no mais existia estava guardado naquela bagagem.
A tristeza ameaou domin-la, mas foi firmemente afastada. Daquele dia em diante, s olharia para o futuro. O passado era passado. Desde que lhe dessem uma chance de construir um novo presente...
Laurel respirou fundo, passou a mo pela capa de chuva para retirar o excesso de gua e indagou sobre a localizao da Matthews Global Investments, mais conhecida como MGI, a empresa de propriedade de Brett.
No elevador, Laurel ajeitou os cabelos com os dedos e tirou a capa. A blusa, embora amassada, estava seca. Assim como parte da cala comprida, porque do joelho para baixo elas estavam encharcadas tanto quanto os sapatos e as meias.
O elevador parou no dcimo-segundo andar e ela desceu com a respirao suspensa.
 Bom dia  a recepcionista a cumprimentou com um sorriso.  Posso ajud-la?
  Gostaria de falar com Brett. Quero dizer, sr. Matthews.
 Seu nome?
 Laurel Worthington.
A mulher verificou uma lista no computador e tornou a se dirigir a Laurel.
 A senhora marcou hora?
 No.
 Qual  sua empresa? Laurel engoliu em seco.
 Eu...
Sob o olhar atento da recepcionista, Laurel sentiu uma onda de pnico amea-la. Precisava dizer algo que favorecesse sua entrada na sala de Brett. No podia ser impedida de v-lo.
 Sou a esposa dele.
A recepcionista arregalou os olhos.
 Esposa?
 Ex-esposa, para ser correta  Laurel explicou, corada.
No mesmo instante, a recepcionista pressionou um boto e se comunicou com a secretria.
 Debbie, a ex-esposa do sr. Matthews est aqui. Sem disfarar o interesse, a recepcionista ficou olhando e sorrindo para Laurel enquanto aguardava a resposta.
 Obrigada.
Laurel sentiu o corao bater mais rpido. Parecia ter passado uma eternidade at que a funcionria devolvesse o fone ao gancho.
  Por favor, dirija-se quela porta. O sr. Matthews j ir receb-la. Se quiser, pode deixar sua bagagem comigo.
Laurel agradeceu com um sorriso mecnico e se encaminhou para a porta. No conseguia entender como estava conseguindo andar. O ar lhe faltava. Em nenhum outro momento de sua vida, sentira-se mais constrangida.
Obrigou-se a respirar fundo e a girar a maaneta. Calma ou no, era preciso prosseguir e dizer a Brett tudo que viera para lhe dizer.
Uma jovem loira com um vestido azul-marinho a recebeu.
 Sra. Matthews? Como vai? Sou Debbie Taylor, a secretria de Brett.  A moa hesitou.  Desculpe a pergunta, mas a senhora  realmente a ex-esposa dele?
 Sou  Laurel respondeu em dvida, agora, se a mulher era apenas a secretria de Brett. No que isso fosse de seu interesse,  claro.  Meu nome  Laurel Worthington. Muito prazer.
 Prazer em conhec-la. Desculpe nossa surpresa. Brett nunca contou que tinha sido casado.
Parecia ser um comportamento padro, Laurel pensou ao se lembrar de seu ex-noivo, Charles Kingsley que tambm havia se esquecido de sua existncia.
  Nosso casamento foi uma brincadeira. Uma aventura.
Debbie a conduziu por vrios corredores. Pelas portas abertas, Laurel pde admirar a decorao da sala de conferncias e de alguns escritrios. Sbrias e elegantes. Exatamente o que ela esperava de Brett. A harmonia era perfeita desde o carpete verde-oliva at os mveis em cerejeira. Havia vasos com plantas por toda parte e belssimas telas a leo.
Chegaram diante de uma porta com o nome de Brett em letras douradas. A secretria abriu-a e pediu que Laurel se acomodasse.
 Por favor, fique  vontade. Brett est em uma reunio, mas no deve demorar. Posso lhe servir um caf ou uma gua?
 No, obrigada.
 Se quiser algo, basta me chamar.
Quero minha vida de volta. Preciso de Brett, Laurel pensou ao mesmo tempo que se sentava em uma das cadeiras que havia junto  mesa. Queria que Brett no demorasse. Queria acabar logo com aquilo.
O escritrio a surpreendeu. No pela decorao, porque j esperava que fosse luxuosa, mas por estar na mais perfeita ordem. No havia nem sequer uma pgina de jornal ou uma folha de papel fora do alinhamento. Impecvel. Jamais imaginara que Brett fosse to organizado. No quando o vira deixar uma trilha de roupas no cho do motel ao caminhar em direo a ela e atirar seu vestido de noiva de qualquer jeito em uma cadeira.
Seu casamento durou apenas algumas horas. Ficaram juntos uma noite. Uma nica, mas gloriosa noite. Ao acordar, na manh seguinte, ela sentiu falta do calor e da segurana dos braos de Brett. Um momento de felicidade, porm, no alterava o fato de que eles continuavam a ser completos desconhecidos.
De que adiantava que Brett tivesse sido gentil e carinhoso? Que a tivesse mimado e feito com que ela se sentisse amada? Que ela o visse sorrindo todas as noites quando fechava os olhos? Sabia que nada do que acontecera significava algo  luz do dia.
Por mais que quisesse acreditar em romance e em amor  primeira vista, Laurel sabia que no bastava partilhar uma cama por algumas horas para duas pessoas, sem mais nada em comum, se apaixonarem.
Mesmo que aquelas horas tivessem sido as melhores de sua vida.
Sua viagem ao Oregon no tinha nada a ver com o amor, o sexo ou a magia daquela nica noite. Tinha a ver com o futuro. Brett Matthews podia ser um estranho, mas era a nica pessoa que poderia ajud-la nas atuais circunstncias.
Os segundos estavam parecendo horas. Ela deveria ter trazido algo para comer.
Por fim, a porta foi aberta.
 Laurel?
O som da voz de Brett lhe provocou um arrepio. Embora eles mal se conhecessem, aquela voz mscula e intensa permanecia gravada em sua mente.
Precisou engolir em seco ao v-lo de cala azul-marinho, camisa branca de mangas compridas e gravata. J o vira de smoking, j o vira sem roupa. Agora o estava vendo como o executivo de sucesso que ele era.
Brett era ainda mais atraente do que se lembrava. Por um momento, sentiu mpetos de correr para seus braos, mergulhar as mos em seus cabelos casta-nho-escuros e ondulados, e pedir que ele fizesse dar certo. Mas se conteve. Embora tivesse vindo a Brett para pedir ajuda, ela no confiava em ningum a no ser em si mesma.
 Precisava dizer a elas que fomos casados? Brett no a cumprimentou, no quis saber como 
estava passando. No lhe deu nem sequer um sorriso. Laurel tentou no levar a falta de cortesia a srio.
 Escapou. Tive receio de que no fossem permitir minha entrada.
 Agora serei obrigado a dar explicaes.
 Desculpe-me.
Brett estreitou os olhos.
 Voc no deveria estar com Henry e sua turma passeando pelas vincolas de Bordeaux?
Ela no fazia mais parte da turma de Henry e desconhecia seu paradeiro.
 Eu decidi no acompanh-los.
 No ano que vem, talvez.
Laurel deu de ombros. No ano seguinte, seu dinheiro daria apenas para uma garrafa de vinho. Se ela tivesse sorte,  claro. 
 Nunca se sabe.
Brett apoiou-se no canto da mesa.
 O que a traz  cidade das rosas?
Ela ensaiou aquela cena milhares de vezes. Olhou nos olhos cor de chocolate que no condiziam com a firmeza do queixo e com o porte atltico. Verdade fosse dita, Brett parecia mais um esportista do que um milionrio do mercado financeiro.
 Vim ver voc.
Ele pestanejou, pego de surpresa pela sinceridade de Laurel.
 Depois de todos esses meses? Laurel fez que sim com a cabea.
 Confesso que no a esperava. Quantos meses passaram? Quase quatro, no? Sem nem sequer uma palavra, um e-mail, um telefonema.
 A recproca  verdadeira  Laurel respondeu.  Alm disso, ns no prometemos manter contato quando nos separamos.
 Sou forado a concordar com voc.
 Eu tinha inteno de contat-lo  Laurel prosseguiu , mas quando voltei para Chicago...  O mundo desmoronou sobre mim. Foi muito pior do que eu havia imaginado.
Laurel baixou os olhos. Nada estava saindo como planejara. Queria contar a verdade a Brett sobre ela e sua me estarem afundando mais rpido que o Titanic, mas no tinha coragem. O orgulho a impedia de admitir a tolice que cometera. Como explicar que quando pensava que as coisas no poderiam ficar pior, elas ficaram?
 Problemas de famlia inesperados exigiram minha total dedicao.
No era a verdade completa, mas tambm no era uma mentira.
Os olhos de Brett pareceram penetrar na alma de Laurel. Desde sua noite de npcias, ela no se sentia to vulnervel.
 Sinto muito por no t-lo procurado antes. Brett cruzou os braos.
 Ento?
O tom de acusao a deixou rgida.
 Ento o qu?
 O que pretende me contar primeiro? Que est sem dinheiro ou que est grvida?
Ele a observou com ateno. Laurel precisou de um minuto inteiro para recuperar o controle. Por mais que tentasse no dar demonstrao, seus olhos azuis diziam que ela no esperava que Brett estivesse a par de seus segredos.
A vitria, contudo, teve um sabor amargo para Brett. No sentiu nenhum prazer ao presenciar o estado de choque de Laurel embora sua vida tivesse se transformado em um inferno desde o encontro em Reno.
 Como voc soube?  Laurel perguntou com um fio de voz.
Um n se formou na garganta de Brett.
 Ouvi uma histria a seu respeito e decidi investigar mais a fundo.
- No entendo  Laurel murmurou, trmula.  Voc sabia que eu estava grvida e no me procurou? No tentou descobrir se...
 A criana era minha?
Mesmo que o detetive que ele contratou no lhe tivesse contado, bastaria um olhar para Laurel para ele ter certeza, mas queria ouvir as palavras de sua prpria boca.
 Por que no checou sobre a paternidade tambm?
Ao menos Laurel no havia perdido seu jeito atrevido de ser, Brett pensou, admirado. Porque parecia incrvel que ela tivesse enfrentado a crise financeira e emocional que se abateu sobre sua famlia, quando foi acostumada, durante toda sua vida, ao luxo e ao conforto.
Brett obrigou-se a endurecer o corao. No podia baixar a guarda nem sequer por um instante. Porque com Laurel, um instante bastava. Desde que a teve, nunca mais conseguiu tir-la de seu pensamento. A lio foi dura. No pretendia repeti-la.
 Ela  minha?  Brett repetiu.
 Sim.
Um beb. O filho dele. Ouvir algum lhe dizer que Laurel estava grvida era uma coisa. Ter a confirmao da prpria Laurel era outra.
No esperava ser pai. No naquele momento ao menos. Mas agora que o fato estava consumado, queria ser para seu filho tudo que seu pai no havia sido para ele. A emoo mal o deixava respirar.
Na verdade, se Laurel no o tivesse procurado, ele teria ido para Chicago para falar com ela. Estava preparado para enfrentar a situao. Seu advogado o alertou para a probabilidade de Laurel exigir uma penso.
Isso no seria problema. Ele estava disposto a pagar o que ela estipulasse, desde que seu direito de participar da vida de seu filho ficasse assegurado.
De repente, porm, uma pequena participao no lhe parecia suficiente. No queria ser pai apenas por algumas horas em fins de semana alternados e ter de escolher entre as frias de inverno ou de vero quando seu filho crescesse.
 Como aconteceu?
 Voc sabe...
 Ns tomamos precaues.
 Nenhum contraceptivo  cem por cento seguro  Laurel respondeu, sem jeito.
Brett hesitou.
 Voc queria que acontecesse? Laurel baixou os olhos.
 No. Para ser sincera, no sei. Eu estava em um beco sem sada.
Sem sada? Ela no poderia ter planejado um mtodo mais eficiente para se salvar da falncia!, Brett pensou. Por outro lado, ele tambm havia unido o til ao agradvel ao concordar com o jogo proposto por Henry Davenport. Porque um casamento com uma garota que ele acreditava pertencer  alta-roda tambm lhe seria conveniente.
Ele no tinha como saber, na ocasio, que Laurel no podia ser a mulher de seus sonhos. Ningum, alis, deveria estar a par ainda de que o pai de Laurel havia gastado toda sua fortuna e fugido com a amante.
 O beb  seu. Eu nunca estive com outro homem. Brett chamou-se de tolo mais uma vez. A farsa deveria ter encerrado aps a cerimnia na capela do cassino, antes de eles irem para o hotel. Mas subir para o quarto e carreg-la nos braos at a cama parecia certo, depois de terem se casado. Em nenhum momento lhe ocorreu que Laurel pudesse ser virgem.
Agora ela estava pobre e sozinha e seu estado era responsabilidade dele.
Brett examinou-a ostensivamente e no notou nenhuma mudana em seu corpo. Talvez porque estivesse sentada. Apenas os seios pareciam um pouco maiores. No dava para ver o abdmem porque a blusa estava por fora da cala.
 Est vendo algo de seu interesse?  Laurel lhe chamou a ateno, irritada.
  Conseguiu localizar seu pai?  Brett mudou de assunto.  Ou ele continua esbanjando por a o que sobrou de sua herana?
 Nunca mais soube dele.  Laurel cruzou as mos sobre o colo e suspirou.  Por que est fazendo isso comigo?
 Por que demorou tanto para vir me contar sobre o beb?
 Minha me precisava de mim. Havia contas a serem pagas, mveis e objetos a serem vendidos.
 No acha que me contar sobre meu filho era to importante quanto essas coisas?
 Voc esqueceu como se faz para ligar para algum? Sabia que eu estava grvida. Por que no me procurou?
Brett no respondeu.
Ao retornar de Reno, ele tirou o fone do gancho mais vezes do que desejaria admitir. Mas o devolveu antes que a ligao fosse completada. Se quisesse, Laurel teria telefonado para ele. Com o passar dos meses, sem que ela o procurasse, ele deduziu o bvio. Laurel se considerava superior a ele. No era a primeira a trat-lo como se ainda fosse o menino, filho da governanta dos Davenport. Mas os contnuos comentrios sobre a situao financeira precria e sobre a gravidez o levaram a tentar descobrir a verdade por meio de um investigador.
Desde a contratao, ele vinha recebendo relatrios dirios sobre as atividades de Laurel. A deciso de procur-la foi tomada no dia que ele foi informado sobre a perda da casa onde me e filha moravam. No lhe ocorreu que Laurel tivesse comprado uma passagem com destino a Portland porque tambm havia decidido falar com ele.
 Calculei que voc entraria em contato se quisesse me ver ou se decidisse pedir ajuda.
 Quanta sabedoria!  Laurel ironizou.
 Ou seja, ns dois estamos em falta um com o outro  Brett concluiu e deu um sorriso ainda mais irnico.  Mas no deixa de ser interessante o fato de voc ter vindo a minha procura justamente quando publicaram um artigo a meu respeito sobre eu ter sido escolhido o executivo do ms pela revista Forbes e por meu livro estar entre os dez mais vendidos segundo o New York Times.
 Como voc ousa sugerir...? O riso de Brett a interrompeu.
 Uma Worthington at debaixo d'gua, no? Apesar de seu pai ter manchado esse nome.
 Voc fala dele como se fosse o ltimo homem sobre a face da Terra.  Laurel pigarreou.  Ok, talvez ele seja, mas o que isso lhe importa?
 Importa que voc  a me de meu filho. Laurel encarou-o.
 Obrigada por reconhecer.
 Voc foi minha esposa.
 Nosso casamento foi anulado.
Ainda parecia incrvel a Brett que dois estranhos pudessem ter se abandonado um nos braos do outro com tanta paixo durante a noite para se despedirem pela manh como se nada houvesse acontecido.
 E nossa noite de npcias?
 Prefiro que no toque nesse assunto.  Laurel respirou fundo e levou uma das mos  nuca para aliviar a tenso.  Se eu tivesse outra pessoa a quem recorrer...
Brett quase tornou a rir. Era pattico. Agora que Laurel no tinha para onde ir, ela o queria. E ele que tanto desejara casar com algum que lhe desse prestgio social, acabara se envolvendo com uma mulher em situao muito pior do que a dele quando criana.
Mas era tarde demais para arrependimentos. A menos que ele assumisse sua responsabilidade e reconhecesse que a criana no tinha culpa de seu erro nem do erro cometido pela me, a histria se repetiria.
Ele precisava se casar com Laurel.
Antes, porm, de fazer o pedido, sentiu uma necessidade imensa de se vingar de Laurel.
 Diga o que voc quer.
 Um emprego  Laurel respondeu aps um breve silncio.
 Est me dizendo que viajou metade do pas para me pedir um emprego?
 E para contar sobre o beb.  Laurel mordeu o lbio.  No achei que seria certo lhe dar essa informao pelo telefone.
 O que mais?
 Nada.
 Nada mais?  Brett encarou-a. Tinha inteno de humilhar Laurel, fazendo com que ela lhe pedisse dinheiro. Em vez disso, ela lhe pediu um emprego!
 O que mais eu poderia pedir?
Seria possvel que ele estivesse enganado sobre Laurel? Ou aquilo fazia parte do jogo?
 Est bem. Eu lhe darei um emprego. Voc supervisionar uma equipe, organizar eventos e realizar trabalhos filantrpicos em diversas instituies. Em troca, ter completa assistncia mdica e odontolgica, uma verba para vesturio e um carro.
 Parece perfeito. Qual ser meu cargo?
 De minha esposa.
CAPTULO II
Esposa? Um casamento de verdade? A pulsao de Laurel tornou-se mais rpida e a garganta ainda mais seca. Umedeceu os lbios enquanto tentava encontrar algo para dizer. Quatro meses antes, ela teria dado qualquer coisa para ouvir aquela proposta. Quatro meses antes, ela teria respondido sim sem pensar duas vezes. Quatro meses antes, a proposta a teria salvado da runa financeira.
Agora tudo estava diferente. Ela havia mudado. Com a gravidez viera a responsabilidade. No pretendia ter um filho ou uma filha to cedo, muito menos solteira. Mas o beb existia e estava crescendo em seu ventre. E ela queria ser uma me de respeito, no algum que correra bater  porta de um homem para que ele a sustentasse.
Casamento no era a resposta. Brett podia ser o pai de seu filho, mas ela no precisava de um cavaleiro em uma armadura reluzente para salv-la.
 No.
 O que disse?
 Eu disse no  Laurel repetiu.  No quero me casar com voc.
 Por qu?  Brett quis saber, perplexo.
Ela quase no o conhecia, mas percebeu quanto sua resposta o perturbou. Estavam quites. Porque Brett tambm a perturbava cada vez que olhava para ela como se fosse uma mercadoria a ser avaliada. Detestava-o quando fazia isso. Tambm detestara a insinuao sobre ela ter engravidado propositalmente. Mas o que mais detestava era no ter a quem mais recorrer.
Por outro lado sabia que Brett tinha razes para estar desconfiado. As vantagens de um casamento com ele eram inmeras. Em especial no sentido financeiro. Mas a lio que ela havia aprendido com seus pais foi sria o bastante para durar toda sua vida: quem controlava a conta bancria, controlava o relacionamento.
Alm disso, seu beb no precisaria ser dono de uma fortuna para encontrar a felicidade. O dinheiro no era um bem permanente. Um dia ele existia, o outro dia no. Para ser feliz, uma criana precisava de amor e de um modelo positivo para seguir.
 No quero seu dinheiro.
Por mais que tentasse se conter, Brett deixou escapar uma risada de deboche.
  Espera que eu acredite que veio at aqui s para me pedir um emprego?
 Sim, eu espero.  A voz calma no traduzia a raiva que a consumia. Sua vontade era sair daquela sala e nunca mais olhar para a cara dele. Mas a necessidade de sobrevivncia falou mais alto.  Se eu quisesse caridade, teria permanecido em Chicago.
 Estou lhe oferecendo casamento, no caridade.
  J me casei uma vez por um motivo errado. No repetirei o equvoco.
 Quero me casar com voc porque o beb precisa de um pai. No  um motivo errado.
  Sim,   Laurel retrucou.  Ningum mais casa por esse motivo hoje em dia.  O beb era de Brett, mas ele no a amava. Ele nem sequer a estimava. Sua me havia se casado por dinheiro e por uma posio social, e nunca foi feliz. Bastava ela ter ficado noiva de um homem que no amava.
 As pessoas podem no se importar, mas eu quero ser o pai de meu filho. Casar com voc  meu dever.
 Dever?  A palavra deixou um gosto amargo na boca de Laurel.
 O motivo no vem ao caso. Ns temos de nos casar pelo beb.
  Muitas mulheres criam seus filhos sozinhas. Eu tambm posso.
 Sem ajuda? No disse que pretendia trabalhar? Quem cuidar do beb enquanto voc estiver fora? Quando resolver sair com os amigos?
 Meus dias de aventuras acabaram.  Laurel tocou o ventre.  Amo meu beb mais do que tudo no mundo.
Uma veia comeou a latejar na testa de Brett.
  Por melhor me que voc venha a ser, toda criana precisa de um pai.
 Voc apenas ajudou a faz-la.
  Est enganada.  Brett abriu um armrio e apanhou vrios livros sobre gravidez, psicologia e educao infantil.
Laurel respirou fundo. Ok. Talvez Brett estivesse mais preparado do que ela para ter um filho, mas isso no era tudo.
 O que pretende? Que eu leia todos eles?  Laurel perguntou.
 Esto s ordens, se voc quiser. Amanh poderemos providenciar o exame de DNA e eu pedirei que meus advogados preparem toda a documentao...
Advogados? Documentos? DNA? Brett estava ultrapassando os limites. A vontade de Laurel era desistir do emprego e procurar outro caminho. Foi com esforo sobre-humano que manteve o controle.
 No me submeterei a nenhum teste.  Ela estava cansada e faminta. A adrenalina que a levara at a presena de Brett estava esgotada.  Ou voc acredita que o beb  seu ou no acredita. Se pretende lutar para ter a custdia...
 Eu no faria isso com voc. Laurel pestanejou.
 Esses papis que voc est tirando dessa pasta...? Brett franziu a testa.
 Isto  meu testamento.
 Eu...
 Ns seremos uma famlia, Laurel.
 Um pai no faz uma famlia  ela o desafiou.  Nem uma me.
Confusa, Laurel passou uma das mos pelos cabelos. No viera a Portland para conseguir um pai para seu beb e um marido para ela. Admitia que o encontro em Reno fora maravilhoso. Brett se mostrara gentil e carinhoso. Mas jamais imaginara que ele fosse querer fazer parte de sua vida. Ao procur-lo, sua idia era simplesmente pedir ajuda.
 Preciso ir  Laurel disse, em pnico.
 Para onde?
 Preciso comer algo.
 Vou com voc.
 Mas...
 Vou lev-la a um restaurante. No pode passar fome em seu estado.
Tudo que ela estava fazendo era em nome do beb, e nada estava dando certo.
Brett estava apenas tentando fazer o que era certo. Por que nada era bom o bastante para Laurel? No era membro de uma famlia tradicional. Seus pais no atravessaram o Atlntico no navio Mayflo-wer. Mas, afinal, quem estava sem dinheiro, sem trabalho e sem um teto era ela! O que mais precisaria fazer para convenc-la a casar com ele?
A caminho do restaurante, o clima no interior do carro era to frio quanto uma manh de fevereiro e o ar-condicionado no estava ligado.
O perfume de Laurel continuava o mesmo. Nunca poderia esquecer a suave fragrncia floral que a envolvia na noite em que a teve nos braos.
Na manh seguinte, pensando que ele ainda dormia, Laurel se vestiu em silncio, colocou algumas gotas atrs das orelhas, nos pulsos e no vale entre os seios.
Mas ele estava acordado desde o romper do dia, pensando no que iria lhe dizer e que nunca foi dito porque a mgoa, ao v-la escrever um bilhete de despedida e coloc-lo sobre o travesseiro, o impediu.
Ele o leu tantas vezes que memorizou o texto:
"Foi o sonho que toda garota acalenta sobre o dia de seu casamento com o prncipe encantado. A cerimnia na pequena capela talvez no tenha correspondido s expectativas, mas a noite de npcias as excedeu. Obrigada por ter realizado minha fantasia, mesmo que ela tenha durado apenas algumas horas. Desejaria ter ficado mais tempo com voc, mas problemas de ordem familiar exigem minha presena em Chicago.
P.S. Obrigada pelo presente que me deu. Adorei a caixinha de msica."
Palavras enganosas. Em Reno, ele havia pensado que era o homem mais feliz do mundo. Que havia encontrado a esposa perfeita.
Ao mesmo tempo, no podia negar a atrao que sentia por Laurel. Uma atrao que aumentava minuto a minuto, por mais difcil que fosse acreditar.
Quando chegaram ao restaurante e ele estendeu a mo para ajud-la a descer do carro, Laurel se encolheu. Depois, quando a conduziu para o restaurante, tocando-a de leve nas costas, sentiu-a enrijecer. No era agradvel para um homem saber que provocava aquele tipo de reao na mulher por quem se sentia atrado por mais que lutasse contra essa situao.
De qualquer forma, ele no havia chegado onde chegara, em sua vida, aceitando no como resposta. A pacincia sempre fora sua amiga.
 Sobre o que estvamos conversando a respeito de nos casarmos...
  No vamos repetir o erro  interrompeu-o Laurel.
 Errado ou no, eu estou preocupado com o futuro do beb e com seu estado atual.
 Gravidez no  doena.  Brett no entendia. Ele tinha de entender seu ponto de vista.  Acha que foi fcil para mim vir para uma cidade que no conheo? Passar trs dias dentro de um nibus?
 Por falar nisso, por que no procurou um emprego em Chicago?  Brett perguntou, subitamente curioso.
 Eu procurei e fui admitida, mas no deu certo. O relatrio dizia que Laurel havia trabalhado em uma importante loja de departamentos, mas no explicava o motivo de sua demisso.
 Tentei conseguir outra colocao, mas cada vez que me apresentava para uma entrevista, descobria que a fama de meu pai havia chegado antes de mim. Alm disso, o mximo que me ofereceram como pagamento foi um salrio mnimo. Diante de tantas dificuldades, pensei que voc, talvez, pudesse me dar uma chance de construir uma nova vida aqui em Portland.
 Voc realmente quer trabalhar?
 Quero.
Laurel falava com convico. Parecia incrvel que fosse a mesma mulher com quem ele esteve em Reno e que no sabia, sequer, o significado da palavra responsabilidade.
 Voc tem alguma formao?
 Sou bacharel em histria da arte.
 Outros cursos ou especialidades?
 Sou boa compradora.
 Gastar dinheiro  o que faz melhor?  Brett franziu o rosto.
 No caoe. Ao menos, por conhecer todos os shopping centers, consegui me empregar em uma loja.
 O que houve com ele?
 Para ser franca, no gostei do que estava fazendo e no me empenhei em conserv-lo.
  O que acha que poderia fazer bem?  Brett estava cogitando sobre o departamento onde poderia coloc-la. Na verdade, no acreditava que Laurel fosse capaz de se adaptar  nova vida com facilidade quando sua nica ocupao at alguns meses antes era se divertir e fazer compras com os cartes de crdito do pai.
Laurel baixou os olhos.
 No sei. Talvez organizar festas. Em casa, era eu quem me responsabilizava por quase todos os preparativos.
Brett demorou alguns instantes para prosseguir.
 Quanto dinheiro voc ainda tem? Laurel hesitou.
 O suficiente.
 Objetos pessoais?
 Uma mala e uma bolsa.
 Com jias e objetos de arte? Relquias de famlia?
 No, apenas algumas roupas e objetos de estimao.  Uma sombra passou pelos olhos de Laurel.  Vendi tudo para pagar os credores.
 Por que no pediu sua prpria falncia? Os dbitos seriam perdoados. Talvez voc pudesse ter conservado a casa e o carro.
 No sou meu pai  Laurel respondeu e seus lbios tremeram. Assumo minhas responsabilida-des em vez de tomar o primeiro avio para uma ilha no Caribe. No quero que meu filho pense que todos os Worthington so iguais.
O beb tambm levaria o nome dele, Brett pensou. Laurel ainda no havia se dado conta disso.
 E sua me?
 Est vivendo  custa da generosidade dos amigos enquanto no encontra um marido que a sustente e a seus luxos.
 Voc poderia tentar seguir o exemplo dela.
 Eu aprendi a lio e nunca irei esquec-la  Laurel declarou de cabea erguida.
Talvez Laurel tivesse aprendido muito mais com sua me do que desejaria admitir. Seu autocontrole diante de Brett, por exemplo, era o mesmo demonstrado por sua me quando seu pai as abandonou.
Quando entraram no restaurante, Laurel se obrigou a colocar as preocupaes de lado. No frequentava bons restaurantes havia meses e sua fome era grande demais para permitir que a tenso atrapalhasse.
Luz de velas, perfume de flores, msica suave. Nada daquilo combinava com o que estava acontecendo entre ela e Brett. No era um encontro romntico, mas uma simples refeio. Apesar de ela estar esperando um filho dele, no passavam de dois estranhos.
 Est ficando tarde.  Saciada a fome, era preciso ser prtica.  Voc ir ou no me arrumar um emprego?  Laurel insistiu.
 Sinto muito, mas...
 Mas o qu?
 Voc no entende. No posso...
 Claro que pode! A empresa  sua!
 Exatamente. Eu tenho negcios para administrar. H dezenas de instituies que podem ajud-la.
Brett estava se referindo a instituies de caridade. Era isso que ele pensava. Todos que ela conhecia pensavam como Brett. Preencher um cheque ou comprar um convite de quinhentos dlares para um evento beneficente era fcil. Mas quando se tratava de ajudar uma pessoa que batia a sua porta...
 Obviamente eu cometi um erro ao procur-lo, mas agradeo pelo seu tempo.  Se tudo que possua no estivesse no carro de Brett, ela teria se levantado e ido embora do restaurante.  Se puder me deixar na casa de Henry a caminho da sua, vou ficar agradecida.
 Henry est na Frana.
Laurel forou um sorriso. Como pudera esquecer esse fato?
 Sim,  claro. Eu me distra.
O garom chegou com a conta e Laurel foi assaltada pelo pnico porque no tinha onde dormir aquela noite. No sabia nem sequer se o dinheiro que restara seria suficiente para comprar uma passagem de nibus de volta para Chicago.
Ela e Brett estenderam a mo para a conta ao mesmo tempo.
 No vou permitir que voc pague  disse Brett.
 Nem eu que voc pague.  Eles se entreolharam.  Por que voc torna tudo difcil?
 Eu?  Brett ergueu uma sobrancelha.
 Solte, por favor.
 Solte voc.
 Isto no  um encontro  Laurel lembrou.  Alis, ns nunca tivemos um encontro. Apenas um casamento, uma recepo e uma noite de sexo espetacular. Um relacionamento moderno.
Sexo espetacular? Laurel mordeu o lbio. Como pudera deixar escapar a confisso?
 Foi realmente espetacular  ele admitiu e seu olhar se enterneceu.
  Solte, Brett. No podemos ficar aqui a noite inteira.
 Ento deixe-me pagar para irmos embora.
 Prefiro passar a noite...
 Comigo?  A proposta a pegou desprevenida. Fez com que se lembrasse da cerimnia na capela quando ela estava atravessando a nave e Brett lhe sorrira. Naquele momento, ela quase acreditou que o casamento era real e que eles teriam um futuro feliz. Que se amariam e que permaneceriam juntos para sempre. Na riqueza e na pobrezal
 Eu pago a conta e depois voc pode dizer sim a meu pedido  Brett sugeriu com os olhos brilhantes.
Foi o que a fez reagir. Brett podia ser alto, moreno e bonito. O tipo de homem que no poderia levar para sua casa e apresentar a sua me. Porque ou ela a obrigaria a aceit-lo como marido, ou se casaria ela prpria com ele.
 Cada um paga a sua  Laurel decidiu e tirou uma nota da carteira, com cuidado para que Brett no visse o pouco que lhe restava.
 No permitirei que voc pague  Brett tornou a afirmar.  O que est tentando provar?
 Que no quero seu dinheiro nem sua caridade.
S um emprego.
 Mas se eu lhe der um emprego, voc no consideraria como caridade?
 No, porque eu trabalharia em troca de meu, salrio.
 Ou?
  Ou eu irei para o Alasca.
 Alasca?
 Conto com um plano de emergncia.
O garom se aproximou e Brett entregou a ele seu carto de crdito.
 Por que escolheu justamente o Alasca?
 Um dia desses, assisti a um documentrio pela televiso e o lugar me pareceu interessante. Disseram que h incentivos para que as pessoas se mudem para l.
 O que pretende fazer?
 Pescar. Eu poderia ganhar bem em um barco de pesca.
Laurel se levantou e Brett seguiu-a. Tornou a toc-la enquanto se dirigiam ao estacionamento.
Por que Brett fazia isso? Cada vez que sentia o calor daquelas mos, o sangue corria mais depressa em suas veias. Talvez ir para o Alasca fosse realmente a melhor soluo.
 Poderia me deixar na estao rodoviria?
  No  um pouco tarde para voc ir a algum lugar?
  Os nibus circulam a noite inteira  Laurel respondeu e estava alcanando a porta quando Brett a segurou pelo cotovelo.  O que foi?
 Esquea o Alasca. Voc conseguiu seu emprego.
CAPTULO III
Brett iria se arrepender de seu impulso, provavelmente, mas a perspectiva de Laurel deixar Portland lhe era insuportvel. Aquela deciso ia contra tudo em que ele acreditava sobre o mundo dos negcios, mas se empregar Laurel era a nica maneira de conserv-la a seu lado, estava disposto a fazer o sacrifcio.
 Est falando srio?  Laurel perguntou, ainda sem acreditar no que ouvira.
 Estou. Minha secretria vive reclamando que precisa de uma auxiliar.
 Voc no se arrepender  Laurel afirmou com um sorriso.
Brett esperava que no. Por outro lado, no conseguia imaginar o que Debbie iria dizer quando soubesse que em vez de ajudar ele lhe daria ainda mais trabalho. A esse respeito, alis, talvez devesse ligar para sua casa e prepar-la antes que ela levasse um choque quando chegasse na empresa na manh seguinte.
 Vou me dedicar a meu servio. Voc ver.  Laurel apertou a mo de Brett em agradecimento.  Obrigada.
Lembranas da noite em Reno o assaltaram e ele no conseguiu soltar a mo de Laurel nem raciocinar. 
O que havia com ela, ou com ele, todas as vezes em que se encontravam? A atitude lgica teria sido procurar seus advogados e se aconselhar sobre a contratao, por exemplo. A atrao que continuava a sentir por Laurel poderia significar um grande problema.
Brett afastou a mo.
 Eu s lhe ofereci um emprego. No se reportar diretamente a mim. Portanto s depender de voc conserv-lo.
 Serei a funcionria-modelo da MGI.
Ela teria sorte se conseguisse passar pelo perodo de experincia, Brett pensou. De qualquer maneira, o que realmente importava para ele era t-la por perto.
 Qual ser meu salrio?
 Esse assunto dever ser tratado com sua chefe. Laurel hesitou.
 Desculpe se estou forando a situao, mas daria para eu ganhar um pouco mais do que o salrio mnimo?
 Todos os funcionrios desta empresa ganham mais de um salrio mnimo.
 Ainda bem, porque alm das despesas normais, terei de arcar com o aluguel de um pequeno apartamento... Afinal, tenho de morar em algum lugar.
Brett no podia permitir que Laurel passasse necessidade no estado em que se encontrava. Talvez devesse pensar com cuidado sobre a questo do pagamento. Em vez de lhe oferecer um bom salrio, talvez fosse mais prudente lhe pagar pouco. Assim, quando Laurel percebesse que no teria condies de viver sozinha, como planejava, passaria a ver seu pedido de casamento com outros olhos.
De repente, ele teve uma ideia. Se seu palpite estivesse certo e o dinheiro de Laurel estivesse acabando, o primeiro passo de seu plano j estaria dado.
 Onde voc ir dormir esta noite?
 Preciso procurar um hotel. Um hotel simples.
 Pode ir para minha casa, se quiser.
 No quero importun-lo.
 Minha me decorou o quarto de hspedes recentemente. Ela o usa quando vem me visitar. Cansada da chuva, resolveu se mudar para a Flrida. Voc pode ficar com ele pelo tempo que for preciso.
 Voc fala como se eu fosse ficar l para sempre. Voc leu meu pensamento. Ele tinha de convencer Laurel a ser sua esposa. Se conseguisse t-la por perto, suas chances seriam maiores.
 Vim para Portland em busca de independncia  Laurel lembrou.
  Eu sei, mas se ficar em minha casa, poder conhecer a cidade e decidir onde prefere morar. Alm disso, nunca devemos fechar apressadamente um negcio para no haver arrependimento depois.
Laurel estreitou os olhos. Era bvio que estava desconfiada.
 Voc mora perto da empresa?  ela quis saber.
 No muito.
 Minha inteno  morar perto para poder ir a p ao trabalho.
 No precisar se preocupar em gastar com conduo. Eu lhe darei carona.  Brett quase deixou escapar um sorriso quando Laurel ficou sem palavras. Sua ttica estava comeando a funcionar. Quanto mais tempo eles ficassem juntos, maiores seriam suas oportunidades de mostrar a ela os benefcios do casamento.  Ento, podemos ir para casa?
Casa. A palavra trouxe imagens  mente de Laurel: boas e ms. Afastou-as. No queria pensar em nada enquanto Brett seguia pela auto-estrada 43 para Dunthorpe, um dos bairros mais elegantes de Portland e onde Henry Davenport tambm morava.
A manso de Brett, em estilo ingls, deixou-a sem flego. Parecia ter sado de um quadro. Flores multicoloridas e rvores altas e copadas a cercavam. O cenrio irradiava paz e aconchego.  Vou pegar sua bagagem.
Laurel subiu pelo caminho de pedra com passadas lentas para poder olhar ao redor com ateno. Apaixonou-se pelo lugar  primeira vista. O jardim, em especial, a fazia lembrar seus doces tempos de criana. Ele era, alis, perfeito para se criar um filho. E seu filho iria visit-lo ao menos uma vez por semana...
O pensamento a entristeceu e ela se apressou a afugent-lo. Deveria estar aliviada por ter onde dormir aquela noite, E agradecida.
Ao terminar de subir a escada da varanda, Laurel viu uma mariposa esvoaando ao redor da lmpada. Franziu a testa. Estaria seguindo o exemplo daquele pequeno inseto? Tambm corria o risco de se queimar ao chegar perto demais da luz? Trabalhar com Brett era uma coisa, dormir sob o mesmo teto que ele era outra, muito diferente.
No deveria estar ali. Mesmo que fosse por uma s noite. Tudo que ela queria era um emprego e uma chance de sobreviver sozinha. No uma proposta de casamento, nem um lugar para ficar, nem uma carona para o trabalho. Mas o que ela menos queria era sentir uma onda de calor inund-la cada vez que Brett a tocava.
Porque era exatamente o que estava acontecendo. Sua mente entrava em curto-circuito quando Brett estava a seu lado. No podia ser verdade. Era apenas uma reminiscncia da atrao que eles sentiram um pelo outro naquela noite em Reno. Mas se fosse apenas isso, por que ela estava to confusa, com vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo? No fazia sentido.
Talvez fossem os hormnios da gravidez.
Ao menos ela esperava que fossem. Porque no podia se arriscar mais. A vida de loucas aventuras havia terminado com seu casamento em Reno. Aquela foi sua despedida. Ciente de que a rica herdeira havia perdido sua fortuna e que precisava enfrentar a dura realidade, ela decidiu que naquele ltimo fim de semana faria tudo que tivesse vontade.
Conhecer Brett foi uma surpresa inesperada. Um bnus. Ningum jamais a fez sentir como Brett, ao beij-la durante a cerimnia de casamento. Se tivesse alguma dvida sobre o modo como deveria se conduzir at que o fim de semana acabasse, Brett a afastou com aquele beijo. A partir daquele instante, ela se entregou ao jogo como se o amanh nunca fosse chegar.
As consequncias no tardaram a despert-la para uma nova responsabilidade. De repente, alm de perder sua fortuna e sua posio social, ela descobriu que estava grvida. Seria preciso encontrar um meio de se sustentar e ao pequeno ser que estava gerando.
Como ele seria? Nasceria com seus olhos azuis ou com os olhos castanhos de Brett? Seria um menino ou uma menina? O sexo no importava desde que o sorriso fosse de Brett. Adorava o sorriso dele.
Brett colocou a bagagem no cho e destrancou a porta.
 H um sistema de alarme  ele avisou.  Vou lhe dar o cdigo.
 No creio que ser necessrio  Laurel se apressou a dizer.  Pretendo comear a procurar um apartamento amanh mesmo.
- Talvez fosse melhor esperar at sbado. Renderia mais se tivssemos um dia inteiro para visitar os imveis. Portanto, a menos que voc planeje passar todo o tempo comigo, aconselho-a a aprender o cdigo de segurana.
Dito daquele modo, Laurel assentiu com um gesto de cabea. Memorizar o cdigo seria o primeiro item de sua lista de prioridades.
Brett entrou na casa e acendeu a luz. O piso era de madeira e havia uma escada ao fundo que conduzia ao segundo andar. Laurel respirou fundo e sentiu um agradvel perfume ctrico no ambiente.
Ao olhar para sua direita, contudo, ela deu um pequeno grito.
 O que foi?  Assustado, Brett largou a mala.
 Voc est se sentindo mal?
 No. A casa foi assaltada. Levaram tudo.
S havia uma lareira na sala. Ao se lembrar dos mveis e objetos que ela foi forada a vender para pagar os credores, Laurel sentiu os olhos marejarem.
 No levaram nada  Brett se apressou a dizer.
 Eu ainda no comprei mveis para a casa. Laurel fitou-o, incrdula.
 Voc est brincando!
 No. Apenas ainda no me animei a decorar os ambientes.
Laurel tornou a olhar para a sala vazia a no ser por algumas pilhas de livros junto a uma parede e soube extamente onde a rvore de Natal deveria ser colocada. Viu as luznhas coloridas e o anjo no topo. Tambm viu os enfeites e as velas sobre o console da lareira e sentiu os aromas de baunilha e de canela no ar.  No costumo receber visitas.
 H quanto tempo mora aqui?
 Far um ano no ms que vem.
A sala de jantar tambm estava vazia. No havia mesa, nem cadeiras, nem aparadores. Nada alm de um bonito lustre e de mais pilhas de livros no cho.
Laurel balanou a cabea ao pensar no contraste entre o interior e o exterior. No jardim, tudo estava perfeito. Ningum que o visse conseguiria imaginar que a casa parecia desabitada. Como Brett podia viver sem conforto? Como podia chamar aquele imvel vazio de casa?
 Mandei trocar o piso e pintar as paredes antes de me mudar para c  Brett contou.  Quis trocar algumas idias com um decorador. Mas quando me indicaram um, no consegui marcar um horrio para conversarmos. Um dia desses, farei isso.
Ocorreu a Laurel, naquele momento, que talvez valesse a pena trocar algumas ideias com o decorador responsvel por aquele escritrio luxuoso.
 Por que no fala com a pessoa que decorou sua empresa?
 Ela  especializada em projetos comerciais.
 Qual o problema? Seria melhor do que o vazio.
Inmeras perguntas assaltavam Laurel. Brett estava se tornando um enigma para ela. Como algum podia viver daquele jeito? E ela? Teria de dormir no cho?
 Nem todos os cmodos esto vazios.  Brett a levou at a sala ntima e apontou para a televiso, para o sof e para a poltrona reclinvel. Fora isso, Laurel notou a imensa lareira de pedra com prateleiras de ambos os lados.
Mveis de solteiro. Aquela casa estava precisando de um toque feminino. De uma planta, de uma mesinha de canto com um abajur e porta-retratos e de um tapete macio para arrematar.
 Parece confortvel.
  E .  Ele seguiu adiante e mostrou a copa-cozinha com uma mesa e quatro cadeiras.
Sim, mas o que Brett comia? A cozinha estava imaculadamente limpa. Ou Brett contava com os servios de uma empregada ou nunca cozinhava.
 Muito bonita.
Mas muito estranha. A beleza se perdia ali. No havia calor humano. Tanta negligncia por parte de Brett a preocupava porque confirmava sua impresso de que ele no queria uma famlia realmente. Porque quem vivia daquele jeito no estava interessado em uma esposa, muito menos em uma criana. Brett era do tipo que vivia para o trabalho e todo conforto de que ele precisava, podia encontrar em seu escritrio.
 Gostaria de beber algo?
 No, obrigada. Estou cansada.
 Vou lev-la at seu quarto.  Brett a tocou na cintura e a conduziu at o hall para apanharem as malas.  Voc ficar em uma sute. Acredito que encontrar tudo de que precisa. Minha me  uma pessoa organizada.
 Foi ela quem arrumou tudo? Voc no tem algum que o ajude?
 Tenho uma faxineira uma vez por semana.
A idia de ficar sozinha naquela casa com Brett de repente a deixou apreensiva. No havia quadros nas paredes. Nem sequer uma gravura. Um arrepio lhe percorreu as costas ao pensar que no sabia quase nada sobre o homem que foi seu marido por apenas uma noite.
 O quarto d vista para o Willamette.
 O que  isso?
 O rio que corta Portland.
Laurel sorriu ao ver a sute. O quarto era magnfico. Ela se sentia como se estivesse entrando em um outro mundo. A decorao em mogno ficava perfeita com a arquitetura em estilo ingls. Ao contrrio do restante dos cmodos, aquele exibia lindas telas com molduras em dourado. Uma delas era de um menino e de uma mulher. Seria Brett e sua me?
 Fique  vontade. Os armrios e gavetas esto vazios. Providenciarei mais cabides assim que chegar o resto de sua bagagem.
 No h mais bagagem  Laurel murmurou.  Tudo que sobrou est aqui.
 Eu no havia acreditado...  Brett confessou.
Uma sombra de tristeza passou pelos olhos de Laurel. Para afast-la, tentou se ocupar com um pote de cristal com flores secas.
 Sua me fez um excelente trabalho.
 Direi a ela que voc gostou. Dei-lhe carta branca para comprar o que quisesse de forma que sempre se sinta em casa quando vier me visitar.
 Por que no pede a ela para decorar os cmodos que esto faltando.
O modo como Brett a fitou e encerrou a conversa a deixou perturbada,
 Se precisar de alguma coisa, estarei no quarto ao lado. Boa noite.
 Boa noite.
Assim que Brett se retirou, Laurel deixou-se cair na cama. Estava exausta e confusa. Sentiu os olhos arderem de lgrimas, mas se recusou a chorar. No se esforara tanto para desabar no final.
Como vinha fazendo sempre que precisava de coragem, tocou a barriga e falou com seu beb.
  Durma bem, meu pequeno. Algo me diz que isto  apenas o comeo.
Um preocupante comeo. Porque nada estava acontecendo como ela imaginara. Brett no era mais o homem que conhecera em Reno e que lhe dera o mais adorvel dos presentes de casamento: uma caixinha de msica com um casal de pombos.
Teria sido uma brincadeira? Brett tambm estava fingindo?
Demasiadas perguntas, poucas respostas.
Laurel tirou os sapatos e se encaminhou para o chuveiro. Queria relaxar e ter uma boa noite de sono para acordar com disposio para iniciar seu novo emprego.
O dia seguinte seria o primeiro do resto de sua vida.
Brett bateu de leve  porta de Laurel. No houve resposta. Ele aguou os ouvidos mas no ouviu nenhum rudo. Ou Laurel ainda estava dormindo ou estava se arrumando no banheiro. Ele esperava que estivesse dormindo. Acord-la seria a maneira perfeita de comear o dia.
Seria um dia inesquecvel. Ele sorriu ao imaginar qual seria a reao de Laurel. Precisava ter cuidado para no demonstrar sua felicidade.
Porque aquele seria o incio de sua campanha para obter o sim de Laurel. Ele havia passado metade da noite planejando sua nova estratgia. No era um executivo de sucesso por acaso. Ele sabia quando era preciso avanar e quando era preciso recuar. O segredo era a pacincia.
Em primeiro lugar, Laurel aprenderia que trabalhar no era to fcil quanto ela imaginava. Levantar cedo e ficar dez horas ou mais trancada em um escritrio. Logo ela admitiria que casamento era uma melhor opo. No que ele tivesse planos de prejudic-la ou ao beb, mas tinha certeza de que Laurel terminaria o expediente contando os minutos para chegar em casa, jantar e dormir. Estaria cansada demais, no sbado, para pensar em procurar um apartamento. E ele estaria ao lado dela, pronto para ajud-la, aliment-la e confort-la.
Se ele soubesse dar as cartas, Laurel estaria desistindo de seu propsito ao final da segunda semana.
Bateu mais forte. Nada. Girou lentamente a maaneta e a porta abriu. O que era um bom sinal. Provava que Laurel confiava nele. Talvez ela lhe desse o sim antes do que ele esperava.  Laurel?
A respirao calma disse a Brett que Laurel ainda estava dormindo. Ele se aproximou da cama p ante p. Ela estava usando uma camisola cor-de-rosa que mal cobria a calcinha. Ele no deveria estar olhando, mas no podia evitar. Aquela era a mulher com quem pretendia viver o resto de seus dias. Mirou as pernas bem torneadas e olhou por um longo tempo para a barriga. Parecia a mesma que ele havia tocado e beijado alguns meses antes. Mas havia uma diferena. Ali estava seu filho.
Laurel acordou ao sentir o toque suave e delicado em seu ventre.
 Brett?
Ele afastou rapidamente a mo.
 Bom dia.
Ela sentou-se rapidamente.
 Programei o despertador para seis horas. No escutei. Sinto muito.
 Voc no podia ter escutado.
Laurel pestanejou e olhou para a janela. O dia estava comeando a nascer.
 Que horas so?
 Seis horas.
 Da tarde?  ela perguntou, assustada.
 Da manh.
0 susto de Laurel o fez sorrir. Era exatamente a reao que ele esperava. O mais provvel era que Laurel nunca tivesse se levantado to cedo.
 Gosto de chegar cedo ao escritrio. Voc se importa?
Laurel esfregou os olhos.
 No.  Ela notou, ento, que ele j estava vestido.  A que horas voc costuma sair?
 As seis e meia  Brett consultou seu relgio de pulso.  Faltam vinte e cinco minutos. Mas se voc precisa de mais tempo...
 Estarei pronta.
 Eu a espero na copa.
 No demoro.
Brett desceu a escada com uma expresso de malcia. Tinha certeza de que no sairiam antes de uma hora. Mulheres como Laurel precisavam de muito tempo para se arrumarem.
Tranquilo e satisfeito, ligou a televiso no canal de notcias e se sentou na poltrona. Mas antes que pudesse comear a se parabenizar por sua esperteza, Laurel se apresentou.  Estou pronta.
Quinze minutos. Era incrvel, mas Laurel no precisou de mais de quinze minutos para se vestir, se pentear e se maquilar. E como estava linda! Por maior que fosse seu autocontrole, ele sentiu o corao bater mais rpido.
 Algo errado?  Laurel olhou para o conjunto preto de saia e blusa.  Desculpe, mas a escolha est limitada. J perdi quase todas minhas roupas.
 Voc est bem. Para ser sincero, deslumbrante  a palavra certa para descrev-la.
 Obrigada. Voc est pronto?
Mais do que pronto, Brett pensou. Estava pronto para esquecer que aquele era um dia comum. Pronto para soltar os cabelos que Laurel havia prendido no alto da cabea. Pronto para carreg-la nos braos e lev-la para sua cama.
Perplexo, Brett se apressou a desligar a televiso.
Em que ele havia se metido?
CAPTULO IV
O que havia com Brett? Desde que sairam de casa, a nica vez que ele lhe dirigiu a palavra foi para perguntar o que ela queria para o desjejum quando parou diante de um caf.
No o conhecia o suficiente para saber se era esse seu padro de comportamento ao acordar todos os dias. Em Reno, ela quis sair cedo do hotel porque a me estava a sua espera. E tambm porque receava quebrar o encanto da noite. Queria guardar os momentos vividos com Brett em sua memria para que eles a acalentassem quando chegasse o perodo difcil que sabia que teria de enfrentar.
Depois da amostra de mau humor que acabara de ter, sentiu-se confortada pela deciso que tomou em Reno de partir antes que ele acordasse.
Logo que entraram no prdio. Laurel reparou na pequena multido ao redor da mesa da recepcionista. Apesar de ser cedo, a atividade j havia comeado na MGL Seriam investidores ou funcionrios? Antes que pudesse descobrir, Brett a conduziu por uma porta que levava aos escritrios privativos.
Daquele lado, o movimento era idntico. Que diferena da tarde anterior! As pessoas andavam de um lado para outro. Os telefones tocavam. Os computadores estavam ligados. A energia era contagiante. Laurel sorriu. Ali, ela faria carreira. Ali ela conseguiria ganhar o suficiente para criar seu beb.
Seguiu Brett, entusiasmada. Ningum parecia prestar ateno nela e isso era um alvio. Poderia comear uma nova vida sem ser alvo de comentrios e de piadas.
  Vou deix-la com Debbie  Brett avisou sem olhar para o lado.  Terei um dia atribulado, mas se precisar de mim, Debbie saber onde me encontrar.
 Eu ficarei bem.  Laurel tinha certeza disso. Aquele emprego era a razo de sua vinda a Portland. Mal podia esperar para comear a trabalhar. Seria melhor se no tivesse de se levantar to cedo, mas se o preo era esse, ela o pagaria sem reclamar.
 Debbie? - Brett parou diante de uma porta e Laurel esperou que ele a apresentasse.
A jovem, muito sria, se aproximou para receb-los.
 Bom dia  Brett a cumprimentou com um sorriso.  Esta  Laurel sobre quem lhe falei.
A secretria fez um movimento afirmativo com a cabea e Brett olhou para Laurel.
 Debbie ser sua chefe. Ela lhe dar todas as explicaes necessrias. Agora preciso ir.
 Ok  Laurel respondeu, insegura. As emanaes que vinham de sua nova chefe lhe diziam que ela estava tensa.  Tenha um bom dia, Brett.
 Voc tambm.
Assim que Brett saiu e fechou a porta, Laurel esperou que Debbie lhe dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Mas a chefe se limitou a encar-la.
Laurel ajeitou a roupa e olhou pela janela.
 Parece que far sol hoje.
Debbie no respondeu. Laurel procurou no desanimar. A novidade deveria ter causado um choque na secretria de Brett. Henry sempre a elogiava por seu charme. Mesmo que levasse algum tempo, daria um jeito de conquistar a amizade de sua chefe.
  um prazer para mim poder trabalhar para voc.
Debbie suspirou com expresso de enfado.
 Sente-se. Vamos comear.
Laurel obedeceu e sorriu. O que quer que acontecesse, era preciso sorrir. A outra lhe entregou alguns papis.
 Voc precisa preencher estes formulrios e ler o contrato que estabelece seus direitos e benefcios. Se tiver alguma dvida, pergunte quando acabar.
 Gostaria de fazer duas perguntas agora, se voc no se importa.
 Fale.
Laurel no deu importncia  indelicadeza da outra. Talvez ela no tivesse dormido bem  noite, talvez tivesse brigado com sua outra metade, ou estivesse naqueles dias...
 Qual ser minha funo?
 Voc ser minha auxiliar. Dividirei minhas responsabilidades com voc, como atender o telefone, cuidar do arquivo etc. E quando algum funcionrio tiver de se ausentar, voc o substituir.
Parecia bom para Laurel. Se estivesse sempre atenta, poderia adquirir experincia bem mais depressa que imaginara.
 Ainda no sei sobre meu salrio. Brett disse que eu deveria tratar com voc...
 Dois mil.
Dois mil por semana? Era o dobro do que Laurel esperava. Daria para alugar um apartamento de dois quartos e, em breve, ela poderia dar entrada em um carro.
Por pouco, Laurel no se levantou e deu um beijo em sua chefe. As coisas estavam saindo melhor do que o esperado.
 Dois mil por ms mais os benefcios.
0 queixo de Laurel quase caiu. Por ms? Era mais do que o salrio mnimo, mas...
 Algum problema?
 No,  claro que no  Laurel se forou a engolir o n que se formou em sua garganta. Podia esquecer o apartamento e o carro. Ao menos no incio. Porque ela iria vencer. Seria uma questo de tempo.
 Voc ficar em teste por trinta dias. Se passar, pode esperar compensao em troca de seu trabalho. Brett  generoso com quem se esfora. H avaliao de seis em seis meses e aumentos anuais. Ocasionalmente, ele d um bnus por mrito.  Debbie fez uma pausa.  Mais alguma pergunta?
Como pagarei o aluguel? Como comprarei comida e fraldas? De onde tirarei o dinheiro para pagar uma bab?
 No momento no, obrigada.
Longe dos olhos, longe do corao. Brett gostaria que o velho ditado fosse verdadeiro. Por mais que quisesse se concentrar em seu trabalho, os pensamentos teimavam em enfocar Laurel. Ele queria v-la, saber como estava se sentindo.
s quatro e trinta, embora ele normalmente encerrasse o expediente s seis, vestiu o palet e se dirigiu  sala de Debbie.
Ela estava em sua mesa, digitando algo no computador, mas Laurel no se encontrava ali.
 Onde ela est?
 Na sala de caf.
Brett apoiou-se no canto da mesa de sua assistente e aproveitou para saciar sua curiosidade.
 Como foi?
 Ok  Debbie respondeu sem tirar os olhos do monitor. Ela no costumava ter aquele tipo de comportamento.
 Poderia ser mais especfica?
 Foi... terrvel.
 Otimo.
 S se for para voc.  Debbie franziu o rosto.  Esquea o aumento que me prometeu ontem  noite. No posso aceitar.
 No pode aceitar o qu?
A incumbncia de fazer Laurel passar por maus bocados.
 Por que no?
 Porque no quero ser uma chefe odiosa. Porque no gosto de fazer as pessoas chorarem.
 Laurel chorou?
 Quase  Por um momento, Brett pensou que a prpria Debbie fosse chorar.  Quando soube quanto iria ganhar... Eu no soube o que dizer. Cus, ela estava usando uma echarpe Hermes! S quem tem dinheiro, pode comprar as roupas que ela veste. No d para entender o que Laurel est fazendo aqui.
Brett deu uma risada.
 No  engraado. Ela  sua ex-esposa, no miaha. E est precisando de um abrao, no de um emprego.
 Exatamente  Brett concordou.   sua responsabilidade fazer com que Laurel enxergue isso. O que mandou que ela fizesse hoje?
 Ler as regras e condies para os funcionrios, preencher formulrios e separar e abrir a correspondncia da tarde.
 Fcil demais.
 Ela no sabe fazer nada.
 No estou pedindo que lhe d servios difceis nem extenuantes, mas aqueles que ningum gosta de fazer.
 Recuso-me.
 Ela poder, por exemplo, se encarregar de manter limpas a geladeira, a mquina de caf, as xcaras e os copos.
Debbie fez uma careta.
 No sabia que voc era do tipo vingativo.
 Estou fazendo um favor a ela.  Brett se defendeu.  Dou-lhe uma semana. Duas, no mximo, para que pea a conta.
 E se voc estiver enganado?
 Quando foi a ltima vez que eu me enganei?
 Quando afirmou que o comrcio online no atrairia o investidor comum.
  Todos ns erramos uma vez ou outra  Brett admitiu.  Mas no estou enganado sobre Laurel.
 Espero que no.
 Confie em mim. Debbie estreitou os olhos.
 Voc est gostando dessa histria, no?
 Ainda no. Em breve, sim.  Ele tinha certeza de que seu plano no falharia.  Muito em breve. 
O dia parecia nunca chegar ao fim. Tudo que Laurel queria era ir para casa, tirar a meia-cala apertada e os sapatos de salto. O que no daria para comprar roupas apropriadas para gestantes e sapatos baixos! Para ir a uma clnica de esttica, tomar um banho de beleza, fazer uma boa massagem e cortar os cabelos! Mas quem pode frequentar uma clnica de esttica com um salrio pouco maior do que o mnimo?
A proposta de Brett, de repente, comeava a parecer tentadora. Talvez ele estivesse certo. Talvez ela no tivesse nascido para trabalhar. Talvez no fosse diferente de sua me e de sua av.
O problema era desistir de sua independncia por um homem que no a amava. Desistir de seu sonho de se tornar auto-sufciente e uma pessoa melhor do que era. Tudo isso em troca de uma vida tranquila e confortvel.
Por maior que fosse a tentao, contudo, havia uma criana a considerar. Suas prioridades agora eram outras.
  Como est se saindo?  Brett perguntou s costas de Laurel.
 Bem.  Laurel pestanejou e forou um sorriso.  Teve um dia produtivo?
 Sim, mas agora eu o estou encerrando. E voc? A vontade de Laurel era gritar de alegria. Mas se limitou a encolher os ombros.
 Ainda no terminei, mas posso deixar para amanh.
  Podemos dar uma olhada em alguns apartamentos e depois jantar.
  Foi um longo dia.  Tudo que Laurel queria era entrar debaixo dos lenis.  Seria possvel deixarmos para amanh ou sbado?
 Sem problema  Brett respondeu com fingida indiferena.  O que gostaria de comer no jantar?
 Taco.
 Conheo um restaurante mexicano.
 Prefiro comprar uma caixa no supermercado e preparar em casa, se voc no se importar.
 Est bem  ele concordou.  Mas daria para voc me explicar a diferena entre tacos de restaurantes e tacos de supermercados?
 No so diferentes realmente.  Ao falar sobre esse prato da cozinha mexicana Laurel sentiu a boca encher de gua. Talvez no estivesse to cansada, afinal de contas.  Mas em casa, d para acrescentar molho de salada do tipo "Mil Ilhas".
 Molho de salada em tacos?
 Do tipo light,  claro,
 Sim,  claro.
Laurel notou a expresso surpresa no rosto de Brett e se deu conta, pela primeira vez, de que era verdade o que diziam sobre grvidas terem desejos estranhos.
Levantou-se. Todas as juntas de seu corpo doam. Os msculos tambm. Esfregou as costas.
 Voc est bem?  Brett perguntou, ansioso. Nada que umas doze horas de sono no resolvessem, Laurel pensou.
 Um pouco rgida. Acho que fiquei sentada tempo demais.
 No esquea seus sapatos.
Laurel olhou para baixo da mesa e suspirou. Como faria para cal-los? Seus ps, certamente, estavam inchados.
 Os primeiros dias so sempre os piores  Brett observou com uma ternura inesperada.  Amanh ser melhor.
Laurel tornou a suspirar.
 Espero que sim.
Tarde daquela noite, Brett fechou a lava-loua e olhou para Laurel deitada no sof. No dava para ver se ela estava dormindo ou acordada. Estava preocupado. Seu plano estava funcionando, mas ele receava ter exagerado. Queria mostrar a Laurel que trabalhar era cansativo, mas no lhe ocorrera esgot-la. Durante o jantar, ele chegou a pensar que Laurel pegaria no sono enquanto mastigava. O pouco que mastigara. Porque Laurel quase no tocou na comida.
 Posso lhe servir mais alguma coisa?
 No, obrigada.
A voz de Laurel era doce. Ele se viu de mos atadas. Estava acostumado a lidar com centenas de milhes de dlares e com seus empregados, no com uma gestante, a me de seu filho. E ele se sentia responsvel por ela e por seu cansao.
 Uma sobremesa, talvez? Laurel abriu os olhos.
 No, obrigada. O jantar estava timo. Havia marcas escuras ao redor deles. Talvez devesse lev-la no colo at o quarto.
 Voc quase no comeu.
 Comi o suficiente.
Brett se sentou na ponta do sof.
 Cansada?
Ela mal moveu a cabea.
 Pareo ter voltado ao primeiro trimestre. O cansao e as nuseas eram permanentes.
Brett colocou os ps de Laurel sobre suas pernas para fazer espao.
 Enjos matinais?
 Matinais, vespertinos e noturnos, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.
Laurel moveu os dedos dos ps e ele tomou o gesto como um sinal para massage-los. A ltima vez que havia tocado em Laurel, ela havia movido as costas contra seu peito para que ele massageasse seus ombros.
 Pensei que iria morrer. Acho que cuidar de um beb deve ser bem mais fcil.
Brett no tinha conhecimento a respeito para poder responder. Os livros sugeriam um desafio. Por outro lado, as pessoas tinham filhos todos os dias. No podia ser to difcil.
 Espero que no tenha se importado de preparar o jantar quando queria ir a um restaurante, provavelmente.
 No me importei.
 Isso  bom porque comida preparada em casa  mais saudvel. Voc no concorda?
Ele sempre comia fora ou comprava comida pronta. Era mais prtico. Mas se Laurel quisesse, ele daria um jeito de cozinhar. Ou de contratar algum com experincia.
 Concordo.
  Voc se ajeita bem na cozinha. Com quem aprendeu?
 Com minha me.  O elogio de Laurel o agradou mais do que desejaria admitir. Comeou a lhe massagear os ps.  Eu fazia a lio de casa na cozinha enquanto ela preparava o jantar. Eu insistia em ajud-la s para poder largar os cadernos. Foi assim que aprendi a separar a clara da gema, a abrir latas, a cortar legumes. Depois, comecei a sentir prazer no que fazia e ela em me ensinar. Era bom cozinharmos juntos.
 Comigo foi diferente. Meus pais nunca se preocuparam com meus deveres de casa. Quanto a cozinhar, ns tnhamos uma cozinheira. Ela no permitia minha entrada na cozinha.
A declarao de Laurel o fez pensar em frieza, no em privilgio.
 E pena. Voc no sabe cozinhar nada?
 Apenas o suficiente para no morrer de fome. Minha me s sabia fazer caf. E como eu s suportava comer carne moda no incio da gravidez, aprendi a preparar tacos e macarronada.
Brett estranhou a carne moda. Apesar dos livros que lera, a gravidez continuava a ser um mistrio para ele.
 Como se sentiu quando soube que estava grvida? perguntou.
 Assustada no incio, mas passado o choque, a emoo tomou conta de mim. Fiquei feliz. Esperar um beb  quase como viver um milagre.
O entusiasmo de Laurel o fez sorrir.
 O que seus pais disseram?
 Meu pai j no estava conosco. Minha me disse que eu era nova demais para ter um beb. Que estragaria meu corpo. Como se essa fosse minha maior preocupao! Mas ela tentou me apoiar do jeito que pde e que sabe. Afinal, ser av no era um de seus grandes sonhos.
Sozinha no mundo. Brett no podia acreditar que estivesse acontecendo, mas ele estava sentindo pena de Laurel.
Por um momento, nenhum dos dois falou. Mas isso no causou nenhum desconforto. Ao contrrio.
Ele terminou de massagear os ps e passou para os tornozelos. Laurel respirou fundo.
 Est bom?
 Se eu fosse uma gata, estaria ronronando.
 Sabia que a massagem em determinado ponto do p pode induzir o parto?
  Leu isso em um de seus livros?
  Sim. O autor dizia que...
 Por favor, no diga nada  Laurel sussurrou.  O que est fazendo  delicioso.
Brett continuou com a massagem. Laurel estava quase dormindo. Era bom toc-la e poder recompens-la pela longa jornada no escritrio.
Laurel sorriu.
 Eu tinha me esquecido desse seu talento. Brett no respondeu. No podia. Ele no tinha esquecido o modo como ela o beijara por todo corpo. Uma outra poca. Uma outra situao. Mas o que Laurel o fizera sentir em Reno jamais seria esquecido. Sua excitao, sua inocncia e sua curiosidade o fascinaram.
 Estava pensando...  Laurel murmurou e deixou-o com a respirao suspensa.
 O qu?
Ela abriu os olhos e fitou-o.
  verdade que cobram antecipado o primeiro e o ltimo ms de aluguel?
Brett pestanejou.
 Preciso saber de quanto dinheiro precisarei para alugar um apartamento.
 Isso depende do proprietrio.  A sensao de Brett foi de levar um banho de gua fria.  Alguns exigem um depsito de segurana. Como foi no seu apartamento de Chicago.
 Eu o escolhi e meu pai se encarregou do resto. Ele sempre dizia que eu tinha coisas melhores para fazer do que desperdiar meu tempo com problemas de dinheiro. Ele cuidava de tudo. Foi ele, inclusive, que escolheu meu futuro marido. Como uma filha obediente, eu aceitei embora no o amasse. Gra;cas a Deus, ns terminanos.
Henry Davenport havia mencionado algo sobre o rompimento ter acontecido pouco antes da brincadeira em Reno, mas Brett no quis conhecer os detalhes. Arrependia-se disso. Agora ele daria qualquer coisa para saber.
 Foi um grande erro  Laurel continuou antes que ele tivesse chance de fazer alguma pergunta.  No culpo inteiramente meu pai pelo que houve. Eu fui uma tola.
Brett no concordava que Laurel assumisse a culpa. Ao menos toda ela.
 Voc era muito jovem. Quase uma criana.
 Sim, mas agora no sou mais e reconhe;co que deveria ter me comportado de outra forma. No apenas eu, alis, mas minha me e os amigos de meu pai.
 Como eles poderiam adivinhar que seu pai os roubaria?
 Eles acreditaram que seu dinheiro seria bem investido. Meu pai os convenceu de que a aplicao proporcionaria timos lucros. No incio, isso aconteceu. Mas ele continuou arriscando e perdeu. Acho que me pareo um pouco com meu pai.
Em matria de risco, Laurel no corria nenhum na opinio de Brett. Ele havia verificado sua documentao e descoberto que ela havia feito um plano de aposentadoria ultraconservador pela menor taxa existente.
 Foi por isso que escolheu aquele fundo de penso?
 Sim,  o plano que oferece o menor risco do mercado  Laurel justificou-se.
 Mas tambm a menor renda.  Ele no deveria estar aconselhando-a, mas investimentos estavam em seu sangue. No podia permitir que Laurel perdesse seu dinheiro.  Voc tem apenas vinte e dois anos.
 Fiz vinte e trs no dia quatro de julho. Inacreditvel. Ele no sabia a data de aniversrio de Laurel. E ela no sabia a dele, provavelmente. No entanto, estavam esperando um filho.
 Continua a ser jovem demais para escolher um plano to conservador.
 No quero mais arriscar. Estou farta de incertezas. Quero garantias a partir de agora.
 Seria bom se a vida fosse simples assim... Brett sentia-se mais velho do que os dez anos que os separavam. Como o pai de Laurel, estava tentando impedi-la de trabalhar. De repente, a culpa o fez engolir em seco.
Por outro lado, casamento continuava a ser o melhor recurso. Nada mais fazia sentido. O beb merecia nascer em uma famlia.
Laurel olhou para a lareira e murmurou:
 As vezes, gostaria de voltar no tempo e mudar passado.
 Todos ns gostaramos.
 Voc tambm?
 Sim  Brett confessou. No costumava se abrir com as pessoas. Nem sequer com Henry, seu amigo de longa data.  Mas no podemos mudar o que passou.
 Eu sei.  Laurel tocou o prprio ventre.  Alm disso, no posso esquecer o que  mais importante.
 Nem eu  Brett admitiu.
CAPTULO V
Laurel nao teria se levantado aquela manh se pudesse adivinhar a situao constrangedora que seria obrigada a enfrentar com sua chefe.
Ou teria, porque no estado em que se encontrava, e no apenas fsico, no havia escolha.
  O que deu em voc?  Debbie quis saber.  No sabe a diferena entre um tonalizador colorido e um tonalizador comum?
Apenas a mesa as separava, mas parecia ser o oceano Pacfico. Culpada do erro, Laurel baixou os olhos e estava colocando uma mecha de cabelos atrs da orelha quando se lembrou dos dedos manchados de tinta preta.
 Estava tentando ajudar.
  Tente explicar isso a Brett quando for pedir sua autorizao para consertar a mquina.  Debbie bateu as mos sobre a superfcie da mesa.  No sei como dizer a ele que todos os grficos do relatrio foram arruinados.
Laurel sabia exatamente o que Brett iria fazer. Despedi-la. E com razo.
 Sinto muito.
 Sentir muito no resolve o problema. O relatrio precisava ser enviado ainda hoje.
Os olhos de Laurel pousaram no caa-nqueis a um canto da sala e a imagem a remeteu de volta  atmosfera enfumaada do cassino em Reno,  cano melanclica ao piano, s luzes brilhantes e ao alegre tilintar das fichas ganhas por algum apostador de sorte.
Um n se formou em sua garganta e seus olhos encheram de lgrimas.
Agora no! Por favor, agora no!
Mas j era tarde demais.
Laurel tentou secar as lgrimas de seus olhos, mas elas deslizaram pelas faces. Com um pedido abafado de desculpa, afastou-se para se refugir no toalete.
 Est mais calma?  Debbie se aproximou de Laurel ao encontr-la apoiada  pia.
No, ela no estava. Era incompetente e todos iriam saber que a qualquer momento ela seria demitida.
 No se sinta to mal.  Debbie pegou uma toalha de papel e colocou-a na mo de Laurel.  Fui dura demais com voc. Afinal, ningum nasce sabendo.
 No  por sua causa que eu... - Laurel no conseguiu terminar a frase. Oh, por que no conseguia parar de chorar? Jurara que isso nunca mais aconteceria. No entanto, estava chorando justamente no trabalho. No segundo dia!
 O que est acontecendo?
  complicado.
Duas mulheres entraram no banheiro naquele instante. Laurel tentou disfarar, mas uma delas viu seu rosto.
  Desculpe, mas no pude deixar de notar. H alguma coisa que eu possa fazer?  perguntou uma das moas que se apresentou como Clia.
Debbie fez um gesto de desalento.
A outra, chamada Sarah, tocou o ombro de Laurel em um gesto de solidariedade.
 Isso j aconteceu com cada uma de ns  disse Clia.  No gostaria de desabafar conosco? Tenho certeza de que se sentir melhor.
Debbie olhou para Laurel e concordou com um gesto de cabea.
Laurel viu preocupao nos olhos das trs mulheres, mas o fato de serem estranhas a deixava em dvida. Ela no havia contado seus problemas nem sequer a seus melhores amigos. Que no eram to bons quanto ela pensava...
Sarah interpretou sua hesitao como um sim e a fez sentar.
 Acho que no  uma boa ideia  Laurel murmurou.  Brett pode no gostar.
 Ficaremos de boca fechada  Clia prometeu.  No ficaremos?
As outras duas assentiram.
Fazia muito tempo que Laurel no conversava realmente com algum. Nem sequer sua me se dispusera a ouvi-la, preocupada que estava com sua prpria situao. Laurel estava s e assustada.
 No sei por onde comear.
 Que tal pelo motivo que a fez chorar?  Clia sugeriu.
 O motivo fui eu  Debbie se acusou.
 No foi voc  Laurel retrucou.  Foi a mquina caa-nqueis que vi em sua sala.
 Por qu?  Sarah estranhou.
 Recordou-me Reno.
 Reno?  as trs perguntaram em unssono. Laurel enxugou os olhos.
 Foi onde Brett e eu nos conhecemos e casamos. Foi l que eu engravidei.
Os queixos caram. Laurel no pretendia choc-las, mas estava em seu limite.
 Talvez seja por isso que estou com as emoes  flor da pele.
 Pudera!  Debbie exclamou.  Eu no sabia que voc estava grvida.
 No apenas grvida, mas descasada e falida.
Laurel sentiu outras lgrimas deslizarem pelas faces.  Brett acha que eu engravidei de propsito porque estou interessada em seu dinheiro. O pior  que ele tem certa razo em pensar assim. Meu pai gastou minha herana e fugiu do pas com a amante de dezenove anos levando o pouco que restou. Minha me foi para o sul da Frana e est em casa de amigos ricos  espera de um novo casamento.
 Voc afirma que no quer o dinheiro de Brett?  Debbie indagou.
 Afirmo  Laurel respondeu.  S quero o dinheiro que eu prpria ganhar. Brett no pode entender o que tenho passado. Para ele, eu sempre serei uma princesa.
  Tem sido terrvel, no?  Clia murmurou, compadecida.
Era bom dividir sua angstia com algum aps tanto tempo. Aquela no era hora nem ali o lugar, mas depois que comeou, Laurel no conseguiu parar.
 Vendi tudo para evitar a falncia, mas quando as pessoas souberam, tudo mudou. Vocs podem imaginar o que significa ver seu carto de crdito ser rasgado ao meio diante de seus amigos? Clia assentiu.
 Aconteceu comigo tambm.
Ao menos ela no era a nica, Laurel pensou.
 Uma por uma, as amigas pararam de retornar meus telefonemas e de me convidarem para sair. Como se no bastasse, meu noivo me deixou.
 Voc estava noiva?  Sarah perguntou, perplexa.
 De certa forma  Laurel respondeu. Porque Charles e ela no chegaram a usar alianas.  Meu ex-noivo estava mais interessado em meu dinheiro e no nome de minha famlia.
 Ele no te merecia  disse Debbie.
 No lamento que tenha acabado  Laurel declarou.  O que me importa agora  meu beb. Ele  o que tenho de mais importante no mundo.
 Sei como se sente  Sarah apoiou-a.  Tambm sou me solteira. No  fcil, mas juro que o sacrifcio compensa cada vez que voc segura seu filho nos braos.
Laurel suspirou ao pensamento.
 Para falar a verdade, estou insegura. Sempre pensei que seria uma mulher do lar como minha me e no me preparei para trabalhar fora. Nunca soube contabilizar minhas despesas. Nem sequer tenho uma conta no banco.
  Precisa abrir uma  Clia lembrou.  Para que seu salrio seja depositado.
Laurel mostrou as mos sujas de tinta.
 Olhem para mim. Quando Brett souber, poderei dar adeus ao emprego.
 Voc encontrar outro  Debbie sugeriu. 
  Por que precisar encontrar outro?  Sarah quis saber.
 Porque eu quebrei a copiadora e estraguei uma poro de grficos importantes.
 No acredito que ser demitida  disse Clia.
 Se acontecer, ns a ajudaremos a encontrar outro emprego  Sarah garantiu.
 Agradeo a gentileza, mas duvido que algum, fora Brett, esteja disposto a contratar algum sem nenhuma experincia e que entrar em licena maternidade antes do final do ano.
  A discriminao  proibida por lei  Debbie lembrou.  Alm disso, todos merecem uma chance.
Onde Laurel poderia estar? Ela disse que tomaria um lanche com as colegas e prometeu que chegaria em casa por volta das oito. Ele concordou, certo de que Laurel faria comparaes quando se sentisse cansada e que acabaria decidindo parar de trabalhar, mais cedo ou mais tarde.
Mas eram quase nove horas e Laurel ainda no havia chegado.
Alm de preocupado, Brett estava desapontado. Ele havia comprado um livro, aquele dia, sobre nomes para bebs. Esperava que aquele pequeno gesto fosse o comeo de um novo relacionamento entre eles. Porque ele queria provar que embora fossem dois estranhos poderiam se tornar parceiros naquela nova experincia.
Ele estava achando a casa terrivelmente vazia. Engraado que ela no lhe parecia to grande at a quarta-feira anterior, antes de Laurel chegar. Nem sequer a pizza, que pediu por telefone para comer enquanto assistia a seu programa favorito de esporte, o estava agradando.
O que havia de errado com ele?
Sua vida era perfeita. Tinha mais dinheiro do que poderia gastar at o fim de seus dias, uma linda casa no bairro mais caro de Portland e uma empresa de grande sucesso. Mas na noite anterior, sentado no sof com os ps de Laurel em seu colo, ele se sentiu feliz como no se sentia havia um longo tempo.
A campainha soou.
Laurel estava em casa!
Ele abriu a porta e ela o cumprimentou, sorridente. Antes que entrasse, algum buzinou e ela se virou para acenar.
 Alex me deu uma carona.
 Alex Niles?
 Sim.
Alex Niles era um dos sujeitos mais disputados pelas funcionrias da MGI e o ltimo que ele queria perto de Laurel.
 Pensei que voc tivesse ido jantar com Debbie e Clia.
 E Sarah  Laurel acrescentou.  Alex nos indicou o restaurante. Como ele ficou trabalhando at mais tarde, ns o convidamos. Ele se ofereceu para me trazer.
Irritado, Brett pensou que Laurel no parecia cansada como se mostrara na noite anterior. Isso seria bom ou ruim?
 Voc parece ter se sado melhor hoje do que ontem.
Laurel encolheu os ombros.
 Acho que sim.
 Aconteceu alguma coisa?
 Por que pergunta?
 Por nada.  Algo estava estranho naquela histria. Ele tinha certeza disso.  Como foi o jantar?
 Muito agradvel. Acho que consegui fazer novas amizades.
 Bom para voc.  No, no era bom. Ele queria que Laurel pensasse que a MGI era o pior lugar do mundo, no um ponto de encontro entre amigas.  Apenas no se canse demais.
 No se preocupe.
Sair aquela noite fora uma necessidade. Graas a Debbie, Clia, Sarah e Alex, Brett no ficaria sabendo sobre o acidente com a copiadora nem com os grficos porque seus novos amigos tomaram providncias nesse sentido e salvaram seu emprego.
 E sua noite, como foi?  Laurel perguntou ao mesmo tempo que se sentava no sof e tirava os sapatos.
 Sem novidades.  Ele entregou alguns pacotes, embrulhados para presente.  Comprei para voc.
 Para mim?  Laurel indagou, surpresa e emocionada com aquele gesto.
 Abra.
Fazia muito tempo que ela no ganhava algo novo. Seu ltimo presente fora a caixinha de msica que Brett lhe dera na noite de npcias.
 Nomes de Beb para o Novo Milnio.
 Achei que voc iria gostar  Brett disse.
 Adorei. Obrigada.  Sorrindo, Laurel abriu o segundo pacote. Outro livro de nomes. Parecia Natal.  Oh, Brett, que delicadeza! No sabe quanto isso significa para mim, mas um era suficiente.
 Um livro nunca  o bastante.
 Palavras memorveis  Laurel respondeu com um sorriso.
 Que se aplicam  vida.
Laurel sentiu-se comovida demais para responder. Pegou um dos livros e abraou-o contra o peito.
 Pela primeira vez, no estou me sentindo to s em minha gravidez.
 Quero estar a seu lado, Laurel  Brett declarou.  No como um pai figurativo, mas como um pai de verdade. No apenas depois que o beb nascer. Desde agora. Como voc disse, h uma nova vida a caminho e eu ajudei a cri-la.
Laurel sorriu e chorou ao mesmo tempo. Brett estava sendo sincero. Podia ler em seus olhos. Sem pensar duas vezes, ela disse:
 Preciso comear a fazer meu pr-natal. Marquei uma consulta com o mdico de Sarah. Estava pensando se voc, talvez, quisesse me acompanhar?
 No precisava nem sequer perguntar. Quando ser?
 Segunda-feira s duas horas, mas caso voc j tenha algum compromisso marcado...
 Eu o cancelarei  Brett afirmou antes que Laurel terminasse.
O sorriso que Laurel lhe deu foi o maior dos presentes. Em seguida, ela lhe entregou um dos livros.
 Comece a ler, papai.
 Papai?
 Como voc acabou de dizer, o beb tambm  seu.
Seria maravilhoso comear a curtir a gravidez a dois. Ao ver Laurel abrir o livro, Brett a imitou.
 O que acha de Emma?  ele sugeriu alguns minutos depois.
  bonito.  Laurel consultou a tabela no final do livro sobre popularidade.  Mas  comum, especialmente entre os yuppies.
 Ento esquea esse.  Ele continuou a ler.  Que tal Amlia?
  um bonito nome.
 Eu tambm acho.
Diante da concentrao de Brett, Laurel sentiu uma onda de ternura. Talvez eles no fossem um casal aos moldes tradicionais, mas o beb teria pais amorosos e dedicados. Mais do que fora seu caso.
 Seus pais eram chegados a voc?  Laurel perguntou.
 Por que quer saber?
 Porque ns nos conhecemos muito pouco. Gostaria de saber mais a seu respeito.
 Minha me  sensacional. O que decide fazer, ela faz. Foi ela que me ensinou a jogar bola. Embora trabalhasse o dia inteiro, sempre estava a meu lado nos momentos que eu precisava.
Laurel percebeu quanto a me significava para Brett por seus olhos e por sua voz. Seria com o filho, provavelmente, como a me fora para ele.
 E seu pai?
 No o conheci. Nunca soube seu nome, de onde veio, como era.  Brett deu de ombros, mas Laurel percebeu que no havia indiferena no gesto.  Ele abandonou minha me grvida. Ela nunca o mencionou. Sempre fomos s ela e eu.
 Sinto muito, Brett. Eu no fazia ideia.  No era de admirar que ele se empenhasse tanto em ser um bom pai. Laurel tocou-o no ombro.  Fico contente que tenha me contado.
 H algo mais que voc deve saber.  Brett no a encarou dessa vez.  Minha me era governanta na casa dos Davenport. Ns moramos no quarto em cima da garagem at eu me formar na faculdade.
Laurel olhou para Brett como se o visse pela primeira vez.
 Ento Henry estava falando srio quando disse que vocs cresceram juntos?
 Conheo Henry desde que nasci, mas nunca fiz parte de sua turma por ser o filho da governanta.
  Voc  incrvel, Brett Matthews. Deveria ter orgulho de si mesmo.
 Por que diz isso?
 Olhe onde voc chegou  Laurel declarou, orgulhosa por ele.  Voc se fez sozinho. Isso conta demais para mim.
 Mas no o suficiente para querer casar comigo.
 Acha que foi por esse motivo que eu disse no?
 Tradio e novos ricos no se misturam.
 Caso tenha esquecido, eu no tenho dinheiro. E seu passado no me importa.
  Seria capaz de afirmar isso se ainda tivesse dinheiro?
  No posso responder porque no sei. Mas sei que no sou a mesma de antes e que apesar dos problemas, sinto que me tornei um pouco melhor.
O olhar de Brett revelava surpresa.
 Por qu, ento, me rejeitou?
 Porque quero ser igual a voc.
 Igual a mim?
 Voc mostrou ao mundo que nada estava alm de seu alcance. Quero fazer isso tambm.
 Nada impede que voc faa, mesmo que esteja casada.
 No posso. Quero me tornar uma pessoa de quem meu filho se orgulhe. Como voc e sua me. Voc entende?
 Acho que sim. E voc? Entende porque quero tanto que meu filho tenha uma famlia?
 Entendo, embora no existam garantias de que uma famlia fique unida para sempre. Olhe para mim e meus pais.
 Olhe para mim tambm. Sei quanto  difcil crescer sem pai. Minha me lutou muito para me criar sozinha.
 Os tempos mudaram.
  No tanto quanto voc pensa. Converse com Sarah a respeito.
Laurel conhecia a realidade. Ela no estava vivendo em um mundo de fantasia.
 Sarah me contou sobre perodos difceis.
  Que eu no quero para voc nem para meu filho.
 Agradeo por sua preocupao, mas estou firme em meu propsito.
A dor que ela leu nos olhos de Brett a fez hesitar.
 Consegue imaginar o que significa sentir inveja de seu melhor amigo? Henry Davenport tinha o melhor pai do mundo. Eu ficava olhando para eles e queria fazer parte. Eles estavam sempre conversando ou fazendo alguma coisa juntos.
Tudo estava ficando claro para Laurel. Mas Brett ainda no havia se dado conta de que poderia se tornar esse pai ideal para seu filho, estando ou no casado com ela. Sentiu mpetos de tocar aquele rosto franzido e acalmar aquele anseio, mas eles no tinham esse tipo de relacionamento.
 O que voc diz  importante, desde que no se esquea do essencial.
 E isso seria?
 O amor.
  O amor no compra comida nem um teto.
  Sim, mas as crianas no pensam dessa maneira. Eu, ao menos, nunca pensei. Por acaso parou para pensar que embora no tivesse o dinheiro de Henry, tinha o amor de sua me?
 Mais de uma vez.
 Ento voc foi rico no sentido pleno da palavra.
Laurel deixou o livro cair. Ao abaixar para apanh-lo, sua mo e a de Brett se tocaram. Os rostos ficaram prximos. Ela sentiu o perfume msculo e ao mesmo tempo suave e custou a convencer sua mente a afastar a mo.
Brett pegou o livro e devolveu-o, mas no se afastou. Ela no conseguiu raciocinar, muito menos falar. Umedeceu os lbios com a ponta da lngua. Brett tomou o gesto como um convite e beijou-a.
Sinos badalaram, luzes piscaram, fogos explodiram no cu.
Brett espalmou as mos em suas costas, puxou-a de encontro ao peito e ela se entregou ao abrao. Queria estar perto dele. Sentir seu cheiro, seu calor, sua fora...
Os braos de Brett ofereciam a segurana que ela no experimentava desde aquela noite em Reno. A i segurana que ela fingia no necessitar.
Queria t-lo uma ltima vez. Quando eles se beijavam, ela esquecia tudo. Queria outra vez uma noite como a que eles viveram em Reno. Mas justamente quando ela estava perdendo o controle, Brett se afastou.
 Desculpe  ele murmurou, sem flego.  No pense que estou me aproveitando da situao. Mas no posso negar que ainda me sinto atrado por voc.
Sem confiar em sua voz, Laurel assentiu com um gesto de cabea.
 Se ns fssemos casados...
 Mas no somos  Laurel o interrompeu, embora com menos firmeza do que deveria.
Os dois fizeram silncio. Ela estava confusa. Brett a fazia sentir viva, desejada e protegida ao mesmo tempo. No entanto, eles no se amavam.
Brett pegou os livros que deviam ter cado enquanto eles se beijavam e colocou-os em cima da mesa. Ela no percebeu. Verdade fosse dita, ela no teria percebido mesmo que a casa houvesse cado.
 Isso no deve tornar a acontecer. Brett apertou os lbios.
 Est bem. Vamos para a cama. Laurel pestanejou.
 O que voc disse?
 Foi um longo dia e voc precisa descansar. Ela precisava de uma ducha fria, no de sono.
 Amanh comearemos a procurar um apartamento.  O quanto antes ela pudesse ficar longe de Brett, melhor seria.
No domingo, Brett e Laurel estavam tomando o caf da manh e ela consultava a seo de anncios classificados do jornal. Um dia e meio de peregrinaes por Portland a desanimara. Exatamente como Brett esperava. Afinal, ele havia tomado o cuidado de lev-la para ver apenas os apartamentos mais feios que lhe indicaram.
 No posso acreditar que aqueles eram os nicos apartamentos que tenho condies de pagar.
 Os aluguis esto altos  Brett informou. No se sentia bem ao mentir, mas era para o bem de Laurel.
Laurel suspirou.
 No vou desistir. Tenho certeza de que encontrarei algo melhor. Uma poro de pessoas consegue viver como eu estou pretendendo.
 Faa uma planilha de gastos e economize. Laurel deu uma risada.
 No sei o que fazer com dinheiro exceto gast-lo. Seria incapaz de preparar uma planilha, quanto mais de me restringir a ela.
 No  to difcil.
O que estava acontecendo com ele? Dando conselhos que poderiam atrapalhar seus planos?
 Ento, voc me ensina?
Viu o que fez, Brett? A ideia era convenc-la a ficar, no ajud-la a sair.
Naquele momento, Brett descobriu que no queria que Laurel ficasse com ele por no ter escolha. Ele queria que ela o aceitasse de livre e espontnea vontade. Para isso, ela precisaria estar segura de si. Ele teria de ajud-la a se sentir assim.
Mas como?
De repente, ele soube. Sua casa. Pediria que Laurel a transformasse em um lar. Um lar que tambm poderia ser dela algum dia.
 Tive uma ideia.  Brett cruzou os dedos para no estar cometendo o maior erro de sua vida.  E se eu ajud-la com o oramento e voc me ajudar a decorar minha casa?
  Como uma troca?
 Sim.
Uma nova luz brilhou nos olhos de Laurel.
 Eu adoraria.
 Voc poderia continuar aqui para facilitar nosso trabalho e ao mesmo tempo guardar dinheiro para comprar seu apartamento.
 No h nada por trs dessa proposta?  Laurel perguntou, desconfiada.
 No iremos brincar de casinha, se  isso que voc est pensando.
  bom que fique claro porque casamento est fora de cogitao.
 Uma troca de favores apenas. O que me diz?
CAPTULO VI
Laurel olhava para a mala sobre a cama como vinha fazendo havia horas. Precisava ter coragem e encarar os fatos. Ela iria morar com Brett, apesar das promessas que fizera a si mesma em contrrio. O que a consolava era saber que em breve teria seu prprio apartamento e que o acordo no significava um retrocesso, mas um passo adiante para ela e para o futuro de seu beb.
Comeou a tirar suas coisas da mala. Primeiro desembrulhou um porta-retrato com uma foto dela entre a me e o pai. Tinha dez anos na poca e eles eram uma famlia feliz. Como a vida tomou um rumo to diferente? Como seu pai pde deix-las? Embora pouco conhecesse Brett, tinha certeza de que ele seria um pai melhor do que o seu.
Em seguida, apanhou um retrato dela com a me e se lembrou das palavras de sua av sobre as mulheres Worthington serem fortes. Esperava que fossem verdadeiras, tanto para si, quanto para sua me.
Depois, foi a vez da caixinha de msica. Laurel abriu-a e virou a chave. A Marcha Nupcial comeou a tocar e os dois pombinhos se encontraram.
Um presente simples, mas que a fazia lembrar a noite mais linda de sua vida, Brett o comprara na loja de suvenires da capela onde se casaram. Ele devia ter notado seu interesse porque a comprou sem que ela visse e lhe fez uma surpresa quando chegaram ao hotel.
Laurel retirou a tampa da caixinha e olhou para a aliana de Brett e para o anel de Henry sobre o fundo de veludo azul-royal. Bijuterias finas, no jias de verdade. Assim como seu casamento com Brett que foi uma fantasia de apenas uma noite.
Ao se dar conta, finalmente, das roupas que ainda precisavam ser guardadas, Laurel fechou a caixinha. Tinha um trabalho a fazer. Brett confiara a ela a decorao de sua casa. Que tambm seria de seu filho.
Estava pendurando as peas mais folgadas que havia separado antes de vender as outras para conseguir dinheiro para a viagem a Portland, quando Brett bateu  porta do quarto.
Ela pediu que ele esperasse um instante para poder esconder a caixinha sob o travesseiro.
 Entre.
 Voc estava to quieta que eu pensei em verificar se estava dormindo.
 Estou desfazendo minha mala.
O sorriso desapareceu to depressa quanto surgiu.
 Deve ser difcil pensar que tudo que restou do passado se encontra a.
 Pior do que perder roupas  no ter onde morar.  A tristeza tentou dominar Laurel, mas ela a afastou com determinao.  Bem, mas por falar em casa, que tal voc comear a me dizer quais so suas preferncias em matria de cores e de estilos?
 Quero que voc decore a casa a seu gosto.
 Voc prometeu que me ajudaria.
  Nesse caso, vou escolher o quarto que dever ser decorado em primeiro lugar.
Brett levou Laurel a uma sute do outro lado do hall que era quase to grande quanto a dela e que se encontrava completamente vazia.
 Por que este?
 Porque me parece o mais indicado para o beb. O que voc acha?
Laurel tocou o ventre com ambas as mos e visualizou o quarto pintado em tom pastel com um tapete sobre o assoalho, uma cadeira de balano, um bero e um trocador e prateleiras repletas de bichos de pelcia.
  perfeito, Brett.
 Ainda bem que voc gostou. Meu quarto fica em frente. Mandarei instalar cmeras de gravao em vdeo para que possa ver o beb de qualquer parte da casa.
Seu filho teria um pai amoroso. Superprotetor, talvez. Mas bom. Era a vez dela, agora, de comear a ler mais e se preparar para a maternidade.
 Voc pensou em tudo.
 Em tudo no, mas  Brett indicou uma parede
 acho que o bero poderia ficar ali. Laurel no conteve um sorriso.
 Para algum que no se interessa por decorao, voc tem muitas idias.
 Isto  diferente.
 Admito que sim.  Laurel continuou a sorrir diante da excitao que havia tomado conta de Brett,
 Obrigada.
 Por qu?
  Por toda essa ateno. Significa muito para mim e para Jnior.
 Jnior?
  Eu costumo conversar com o beb  Laurel confessou, corada.  Mudo o nome, de vez em quando, pois no sei se  menino ou menina. Falar com ele faz com que parea mais real. Como ainda no o sinto mexer e os enjoos passaram, s vezes parece um sonho. Bobagem minha.
 No concordo.  Brett estendeu a mo em di-reo ao ventre de Laurel e olhou em seus olhos.  Voc permite?
Laurel fez que sim com a cabea. Um instante depois, ele a tocou de leve, com reverncia. Logo porm, estava com a mo inteira espalmada em sua barriga.
  Oua o papai, Jnior. Daria para voc tentar se mexer um pouco para que sua me no fique to preocupada?
Laurel sorriu com a doura do gesto. Ao mesmo tempo sentiu que um forte calor se espalhava por seu corpo. No deveria gostar tanto do toque de Brett, mas era o que estava acontecendo.
Ele a fitou naquele momento e ela parou de respirar. Pareciam um casal de verdade, uma famlia.
Na tarde da segunda-feira, Brett abriu a porta para que Laurel entrasse no carro. Eles estavam saindo do consultrio do dr. Miles, o obstetra que iria cuidar de Laurel.
 Cento e cinquenta batidas por minuto! Mal d para acreditar!  Brett exclamou, enlevado. Pela primeira vez, ele havia ouvido as batidas do corao de um beb. E era seu beb.  O que achou do dr. Miles?
 Ele  tudo que Sarah mencionou. Gostei de seu jeito. E voc?
 Parece competente.
 No pensei que fossem recolher outra amostra de meu sangue. Fizeram isso em Chicago na primeira consulta. Disseram que  rotina.
Na verdade, depois de ler tantos livros, Brett gostaria de ter feito uma poro de perguntas ao mdico, mas sentia-se to honrado por Laurel ter desejado sua companhia durante a consulta que no quis atrapalhar. Talvez no ms seguinte, quando ela iria se submeter a uma ultra-sonografia, ele estivesse melhor preparado. Mal podia esperar para ver a imagem de seu filho.
Antes de ligar o motor, Brett consultou seu relgio de pulso. Duas e trinta. Poderia voltar ao escritrio porque faltavam muitas horas ainda para o trmino do expediente. Mas a ltima coisa que ele queria era ficar longe de Laurel aquela tarde. Alm disso, sua equipe tinha condies de tocar o negcio por algumas horas, sem sua presena.
 Vamos tomar um sorvete?
 Agora?  Laurel estranhou.  No precisamos voltar ao escritrio?
- Hoje no. Sou o chefe, lembra-se?
 No acredito no que estou ouvindo. Nunca ouviu dizer que o exemplo precisa vir de cima?
 Ningum ficar sabendo.
 E eu?
Brett deu uma piscada.
  Ouvi o corao de Jnior bater pela primeira vez. Isso merece uma comemorao.
  Bem, colocado desse jeito, confesso que adoro sorvete.
 De menta com raspas de chocolate.
 Voc no esqueceu!  Laurel exclamou, perplexa, sorrindo.
 Lembro-me de cada detalhe daquele dia e daquela noite, Laurel.
Ela corou intensamente e Brett fez um movimento afirmativo com a cabea. s trs horas da manh, Laurel havia manifestado desejo de tomar um sorvete de menta com raspas de chocolate e, mediante uma generosa gorjeta, um dos camareiros havia providenciado uma taa completa com creme chantilly e cerejas.
Os olhos de Laurel faiscaram.
 Ento vamos comemorar. Quero o meu com duas cerejas e muita castanha.
 E depois do sorvete, vamos passar por uma ou duas lojas especializadas e tirar idias para o quarto do beb.
O entusiasmo de Brett deveria servir de alerta para Laurel. Em vez disso, ela sentiu que aquecia por dentro.
 Voc sabe como ganhar o corao de uma mulher  Laurel brincou.
O sorriso de Brett tornou-se maior. Aquilo era apenas o comeo.
Alguns dias depois, Brett terminou de verificar seu ltimo e-mail e fechou o laptop. Hora de ir para casa.
Ele e Laurel estavam vivendo uma confortvel rotina. Voltavam para casa juntos, preparavam o jantar, conversavam sobre o dia que tiveram e sobre muitos outros assuntos enquanto comiam.
Era como se estivessem realmente casados. Ao menos Brett imaginava que a vida de casado fosse daquele jeito. Melhor ainda, alis, porque implicaria em um relacionamento fsico.
No era fcil ter Laurel a seu lado e no beij-la. Talvez ele pudesse usar o primeiro movimento do bebe como uma desculpa para se aproximar mais um pouco.
Ensinar Laurel a lidar com dinheiro infelizmente estava provando ser uma tarefa que exigiria pacincia. Ela no tinha a menor noo de valores. No conseguia organizar suas prprias despesas, muito menos as compras com decorao.
Por outro lado, a ltima coisa que ele queria era ajud-la a se tornar auto-suficiente. Cada vez que culpava os pais de Laurel por sua ingenuidade perante o mundo, lembrava-se de que ele tambm queria proteg-la dos perigos. Mas no podia. Era preciso ensinar Laurel a ter os ps no cho. Esse seria o nico meio para atingir seu objetivo.
 Voc est ocupado?  Laurel perguntou da porta da sala dele.
 No.  Ele apanhou a pasta.  Na verdade, estava me preparando para ir embora.  Naquele momento, Brett viu os lbios de Laurel tremendo.  O que foi?
  Estou com medo do resultado do exame de sangue.
Brett queria abra-la. Tambm estava ansioso para saber se Laurel e o beb estavam bem. Jamais sentira algo to forte em sua vida.
Incapaz de se conter, Brett a envolveu pela cintura e a atraiu de encontro ao peito. Quando seu abrao foi correspondido, ele fechou os olhos e pensou que poderia ficar assim com Laurel para sempre.
 O bebe est bem. Ns ouvimos seu corao bater rpido e forte, lembra-se?
Era meia-noite e meia quando Laurel desceu para a cozinha. Deitara-se s oito horas com a inteno de descansar, mas no conseguiu dormir. No havia motivo, realmente, para sua angstia. Insegurana pura e simples, repetia a si mesma.
Por volta das onze, apanhou a caixinha de msica. Ouvir a Marcha Nupcial e ver os pombinhos rodarem foi sua salvao nos dias tenebrosos que viveu em Chicago antes de decidir procurar Brett em Portland, Oregon.
O milagre se repetiu. De repente, Laurel comeou a sentir fome. Em outras circunstncias, estranharia essa sensao diante dos pensamentos confusos. Mas agora havia um pequeno ser crescendo dentro dela. Era preciso ser forte por ele e por ela mesma. Em todos os sentidos. Porque ela o queria muito.
Provavelmente, sua gravidez seria mais tranquila se Brett a amasse e ela o amasse. Era uma pena que no fossem um casal de verdade.
Um rudo de teclas lhe chamou a ateno ao se aproximar da cozinha. Brett estava l, digitando em seu laptop.
 Com fome?  ele perguntou.  Voc quase no jantou.
 E com sede.
Ele largou o trabalho no mesmo instante.
 Vou aquecer seu prato.
 Posso fazer isso.
Como se no a tivesse ouvido, Brett abriu a geladeira e retirou o prato que Laurel deixara quase intacto.
 Obrigada.
 Conseguiu dar um cochilo ao menos?
Ela pensou em mentir, mas seria intil tentar esconder suas preocupaes. Embora eles pouco se conhecessem, Brett sabia muito a seu respeito.
 No.
 Nem eu. Estou preocupado com voc.
 Agora estou mais calma.
O microondas avisou que a comida estava aquecida. Brett apanhou o prato e colocou-o diante de Laurel junto com um copo de leite.
 Estive refletndo...  Laurel murmurou.
 Parece srio  Brett tentou amenizar a seriedade da conversa.
Era. Quando decidiu vir para Portland, Laurel estava mais preocupada com sua situao financeira. Depois comeou a reconhecer Brett como o pai de seu filho. E agora? Poderia confiar que ele ficaria a seu lado e de Jnior, fossem quais fossem as circunstncias?
 Pretendo fazer tudo que estiver ao meu alcance para levar esta gravidez em frente. Quando me sinto mal, o medo de perder o beb me domina. Amo meu filho. Ele ou ela  a nica famlia que me restou. Achei que voc devia saber.
Brett respirou fundo.
 Estarei com voc sempre. Confie em mim.
Brett estendeu a mo por cima da mesa e apertou-lhe os dedos. Laurel sentiu-se to feliz e emocionada com o gesto de carinho que descobriu que apoio era melhor, naquele momento, do que toda independncia do mundo. Se Brett pudesse am-la, sua felicidade seria completa.
CAPTULO VII
S se encontravam Brett e Laurel na sala de espera do centro de diagnsticos onde seria realizado o exame de ultra-sonografia. Brett no conseguia parar de se mover na cadeira. Estava ansioso. Laurel estaria se sentindo como ele? No queria perguntar. No queria deix-la nervosa. Nos ltimos dias, para afugentar os receios, eles haviam dedicado todo tempo livre  decorao da casa. Uma arquiteta, Rene Bernard, estava ajudando-os na escolha dos mveis e das cores.
 Quer que eu lhe traga algo?  Brett ofereceu. Mas o que desejava realmente era faz-la sentar em seu colo e aninh-la nos braos.
Laurel deu a ele o copo vazio.
 Se demorarem muito para me chamar, no sei o que ser de mim. Acho que j tomei um balde de gua.
Brett franziu o rosto.
 Posso tomar a mesma quantidade, se voc quiser, para lhe dar apoio.
Pela primeira vez aquela manh, Laurel sentiu vontade de rir.
 Isso vai alm de seu dever de pai, no acha? Mas agradeo o esprito de solidariedade.
Brett pensou que gostaria de ter uma mquina fotogrfica em mos naquele instante para gravar aquela imagem.
 Se mudar de ideia...
 No mudarei. Sossegue.  Ela tornou a rir. Cinco minutos depois, Laurel foi chamada. Ao se levantar, ela estendeu a mo a Brett em um convite para que a acompanhasse. Ele ficou to surpreso que demorou um instante para aceit-la.
Na sala de exame, a mdica se apresentou e entregou-lhes seu carto de visita. Ao explicar o que seria feito, Brett admirou-a por sua firmeza. Laurel e seu filho estavam em boas mos. Alm disso, com sua gentileza, a mdica ajudaria Laurel a relaxar. Seu desconforto estava evidente.
Mal podia esperar para que o exame acabasse e a mdica dissesse que estava tudo bem. Ento eles iriam para casa e fariam uma nova comemorao. Porque nem ele nem Laurel iriam para o escritrio aquela tarde. Mais do que isso, ele havia dado ordens a sua equipe para que no lhe telefonassem a no ser que o mercado desabasse.
  Vou fazer algumas perguntas a vocs.  um procedimento de rotina.
A mdica fez um crculo em uma folha de papel e disse que ele representava Laurel. Acima, desenhou outros dois crculos e chamou-os de pai e de me de Laurel. Em seguida, rabiscou um tringulo.
 Este representa o senhor. Como est sua sade?
 Excelente.
 Sua me?
 Nunca ficou doente.
A mdica desenhou outros dois tringulos sobre os de Brett.
 E seu pai?
Brett hesitou. Ele deveria ter consultado sua me. O temor ameaou invadi-lo. Mas bastou olhar para Laurel e ele recuperou o controle. O respeito e o apoio de Laurel lhe davam foras para ignorar as ms recordaes.
 No sei nada sobre meu pai.
 Irmos?
 No.
 Algum primo ou tios com problemas de sade?
 No que eu saiba.
A mdica fez as mesmas perguntas a Laurel. Terminado o questionrio, conduziu-os  sala de ultra-sonografa. O local era escuro a no ser por uma pequena luz que vinha da parte inferior de um gabinete e dos botes do aparelho.
Laurel se deitou na mesa, levantou a blusa e baixou o cs da cala. Era a primeira vez que Brett tinha oportunidade de examinar a barriga de Laurel. Embora ela estivesse deitada, dava para notar a diferena. Foi duro acarici-la apenas com os olhos porque a vontade de toc-la quase o venceu.
Uma camada de gel foi aplicada no local. Em seguida, a mdica pressionou alguns botes, colocou um pequeno aparelho sobre a barriga de Laurel e uma imagem apareceu no vdeo. O beb. O beb deles.
Brett mal conseguia respirar. Ao distinguir a cabea de seu filho, sentiu as pernas fraquejarem.
 O crnio est perfeito  garantiu a mdica e apontou para outra parte.  Esto vendo o corao? Brett olhou para Laurel. Ela estava com os olhos muito abertos, fixos no monitor.
 Voc est vendo nosso Jnior, Brett?
 Estou  Brett respondeu, sorrindo. Era maravilhoso estarem dividindo aquele momento.   incrvel ver esse coraozinho batendo.
Mais incrvel ainda do que ouvi-lo bater. Como se sentiriam, ento, quando o tivessem nos braos e pudessem olhar para ele e beij-lo?
 Esta  a coluna  a mdica prosseguiu.  Esto identificando as vrtebras?  A mdica fez uma pausa.  Sua bexiga est bem cheia, sra. Matthews. No quero que se sinta mal aqui. Por que no a alivia um pouco?
Laurel fez que sim com a cabea e saiu. Brett continuou olhando para o monitor cuja ltima imagem havia ficado congelada.
Nunca sua paternidade lhe parecera to prxima. Subitamente, suas leituras no lhe pareciam suficientes. Como saberia o que fazer quando o bebe chegasse?
  seu primeiro filho?  a mdica perguntou.
  Sim.  Laurel e ele haviam feito aquele ser. Agora eles tinham de criar uma famlia. Era essencial que Laurel entendesse, o quanto antes, que eles precisavam se casar.
 Sero meses inesquecveis. Mesmo que decidam ter outros filhos no futuro, nada se compara ao primeiro exame de ultra-sonografia.
Outros filhos? Tanto ele quanto Laurel eram filhos nicos. Jnior teria irmos? O que Laurel pensaria quando descobrisse que ele gostaria de ter mais de um filho? Algum dia abordariam aquele assunto?
 A senhora tem filhos?
 Dois. Um menino e uma menina. Estes.  A mdica mostrou uma foto na parede.
 So lindos.
 Obrigada. No h nada como ter um filho. No d para descrever.  preciso experimentar.
Brett estava ansioso para ver seu filho nascer. Queria acompanhar seus progressos. Seu primeiro banho, o primeiro passo, a primeira palavra, o pri-I meiro aniversrio...
De repente, a imagem de sua me lhe veio  mente. Como ela havia conseguido cri-lo sozinha? E como seu pai pde desprezar a chance de conhec-lo? Ter um filho era uma bno.
O exame teve prosseguimento e a mdica comeou a elogiar os avanos tecnolgicos no campo da Medicina. Laurel no conseguiu prestar ateno. Todo seu interesse estava voltado para a imagem no mo-l nitor. Ao acompanhar os batimentos cardacos de seu beb, seus olhos encheram de lgrimas.
 Tudo bem?  Brett perguntou e apoiou a mo no ombro de Laurel.
Incapaz de falar por causa da emoo, ela fez que sim com a cabea. Brett, o beb... Os dois amores em sua vida...
Subitamente a imagem mudou e Laurel o chamou com urgncia.
 Brett? Voc est vendo? Jnior est realmente chupando o dedo?                                                  
Brett riu alto.
 Parece que sim.
Laurel apertou a mo de Brett em seu ombro e ele retribuiu a carcia.
 Os dois pontos escuros, prximos um do outro, so os rins  a mdica explicou,  E agora, se no querem saber o sexo, aconselho-os a fecharem os olhos.
Eles se fitaram. Laurel tentou ler o pensamento cie Brett, mas no conseguiu.
 O que voc acha?
 Voc decide.
 No. Ns decidimos  Laurel retrucou. A existncia de Jnior se devia tanto a ela quanto a Brett. 0 presente era de ambos. Decises sobre ele, portanto, tambm deveriam ser tomadas por ambos.
 Vamos esperar?  Brett sugeriu.
 Vocs so o terceiro casal que eu atendo hoje que preferem no saber. Bem, fechem seus olhos.
Laurel deu um gritinho e tapou os olhos com as mos. Brett tornou a rir.
 Tem certeza de que no ir olhar? Nunca teve curiosidade de descobrir o que iria ganhar no Natal?
Laurel fechou os olhos com mais fora.
 Tive. Vasculhei a casa inteira e encontrei os presentes escondidos na lavanderia. Foi meu pior Natal.
 Podem abrir os olhos.
 Deu para ver?
 Se mudaram de idia...
 No!  Laurel e Brett responderam juntos.
A mdica sorriu para eles e imprimiu uma imagem.
 Para o lbum do beb: sua primeira foto. Laurel segurou o papel como se fosse um tesouro.
E era.
 Obrigada. Brett pigarreou.
 Poderia dar uma para mim tambm?
A mdica pressionou imediatamente uma tecla.
 Para o senhor colocar em sua mesa de trabalho.
 Era exatamente o que eu estava pensando.
 Seu mdico ir receber o laudo do exame com todas as informaes detalhadas  disse a mdica,  mas, desde j, posso afirmar que o beb est bem e que a gravidez est normal.
Laurel sentiu os olhos marejarem de emoo. Queria demais aquele beb. No podia perd-lo. Nem a Brett...
Aps o exame, Brett e Laurel voltaram para casa e ele a fez descansar enquanto preparava algo para o almoo. Feita a refeio, Laurel subiu para o quarto.
O silncio era total havia duas horas. Brett ficou preocupado e tomou a liberdade de bater  porta.  
  Laurel?
 Entre.
Ele deu um passo e parou. Laurel estava deitada de lado e seus cabelos cobriam o travesseiro. Estava to linda e parecia to frgil que ele quis cobri-la de beijos.
 Trouxe algumas roupas mais confortveis.  Eram camisetas e abrigos dele. At ver a barriga de Laurel ele no havia se dado conta de como ela ainda estava conseguindo usar aquelas roupas apertadas.
 At voc resolver sair para fazer compras.
 Obrigada. Eu estava mesmo precisando.
 Conseguiu descansar? Ela assentiu.
 Foi bom. Eu quase no dormi a noite passada. Nem ele. Por um minuto, nenhum dos dois tornou a falar.
 Quer que eu lhe traga algo?
Ela comeou a falar, mas parou.
 Diga  Brett insistiu.
 Com tudo que aconteceu hoje, voc poderia me abraar? S por um instante?
Um sorriso surgiu nos lbios de Brett. Esse era o tipo de favor que ele faria de bom grado.
 Devo cronometrar o tempo?
Laurel sorriu e Brett se deitou na cama ao lado dela.
 Que tal?  Ele abriu os braos.
 Perfeito  Laurel respondeu ao mesmo tempo que apoiava as costas e a cabea no peito dele.
 As ordens.
Brett abraou-a por trs e mergulhou o rosto nos cabelos brilhantes e perfumados. Ele queria que fosse assim sempre. Todos os dias e todas as noites.
Mas, o que estava pensando? Eles iriam se casar por causa do beb. No havia outra razo. Se no fosse por Jnior, Laurel no estaria ali. Com Laurel em seus braos, porm, era fcil esquecer a realidade.
 Foi muito bom ter voc comigo hoje, Brett  Laurel murmurou e ele a apertou de encontro ao peito.  Acho que tenho sido egosta.
 Voc tem sido um exemplo de mulher  Brett retrucou.  Colocou seu filho em primeiro lugar porque isso era o mais importante neste momento de sua vida. Estou orgulhoso de voc. Deixou o passado para trs, arrumou um emprego e est aprendendo a organizar suas finanas.
 Sinto que vou fraquejar de vez em quando...
 Voc no ir. Voc  forte e corajosa.
 Voc fala com tanta certeza. Como ser quando ele nascer e eu sair do hospital?
 Saber o que fazer como todas as mes sabem depois que seguram os filhos nos braos.
 Gostaria que os bebs viessem com um manual de instrues.
Brett riu da observao.
 Acho que seria mais fcil.
 Sinto-me melhor agora que voc concordou comigo.  Laurel se aconchegou a ele. Encaixavam-se to bem. Pareciam duas metades transformadas em um inteiro.  As vezes, acho que voc est mais adiantado do que eu nas lies sobre os cuidados com bebs.
 Impresso sua. Ler  fcil. Eu nunca troquei uma fralda antes.
 Nem eu.
  Por que no procuramos um curso para pais inexperientes?  Brett sugeriu.
 Seria timo  Laurel se apressou a concordar.  Voc me empresta um de seus livros?
 Claro! Poderamos ler juntos, um para o outro.
 Eu gostaria. Assim como estou gostando de ficar com voc agora.  Laurel virou-se e olhou para Brett.  No consigo imaginar outro pai para meu filho.
 E seu ex-noivo?  Mal fez a pergunta, Brett se arrependeu.  Desculpe. Isso no  de minha conta.
 No me importo de falar a respeito. Talvez voc o tenha conhecido. O nome dele  Charles Kingsley.
 Das Empresas Kingsley?  Brett se referiu a uma das maiores empresas do pas.
 Sim. Charles  o tataraneto do primeiro Kingsley. Ns fomos amigos de infncia. Nosso casamento ficou acertado entre nossos pais desde que ramos pequenos. O amor nunca esteve em questo.
No seria um casamento ideal, Brett pensou. Mas, por acaso, ele tinha amor para oferecer a Laurel?
O pensamento fo afastado rapidamente. O caso deles era outro. Havia uma criana envolvida.
 Por que voc aceitou se casar com ele?
 Eu me fiz essa pergunta um milho de vezes  Laurel admitiu.  Charles era bonito e rico. Um marido perfeito segundo minha me. As razes no eram as melhores, mas a unio fazia sentido no mundo em que ns vivamos. E claro que eu no podia imaginar...
 O qu?  Brett se apressou a perguntar quando Laurel parou.
.  Tudo que teria perdido caso tivesse me casado com Charles. Ns gostvamos um do outro, mas como amigos. Nunca trocamos mais do que beijos mesmo depois que ficamos noivos. Charles no me pressionava e eu no sentia nada de estranho em nossa relao. A falta de desejo deveria ter sido um sinal de que no havia amor.
Mais do que isso, Brett pensou. O sujeito no deveria ter sangue nas veias para no querer mais de Laurel do que simples beijos.
 Eu diria que sim.
 Eu sonhava com a cerimnia de casamento. Imaginava-me de vestido de noiva. A msica, as flores. Mas nunca me ocorreu como seria a lua-de-mel. Confesso que jamais entendi a que minhas amigas se referiam sobre a noite de npcias, at que voc me beijou durante a cerimnia de nosso casamento. Eu nunca tinha sentido nada igual. E no queria que acabasse.
Brett no pde conter o sorriso que a declarao provocou.
 Foi isso que quis dizer em seu bilhete quando afirmou que a realidade havia superado suas expectativas?
 Foi. Voc se lembra?
 Como poderia esquecer?  Ele se lembrava do momento em que a despira, depois de desabotoar cada prola de seu vestido. Ela ficou ao lado da cama apenas de suti, calcinha branca de renda e meias de seda tambm brancas.
 Agradeo minha sorte por no ter casado com Charles Kingsley  Laurel afirmou com convico.  A segunda melhor coisa de minha vida foi ter sido deixada por ele.
 E a primeira?  A curiosidade o venceu.
  Casar com voc.  Laurel suspirou.  Voc me deu uma noite mgica e um beb. O que mais eu poderia desejar?  Laurel entrelaou seus dedos aos de Brett e colocou-os sobre sua barriga.  Eu faria tudo de novo sem pensar duas vezes.
Foi como se o corao de Brett parasse de bater.
 Eu tambm  confessou. E era verdade. Para sua vida ficar ainda melhor, s faltava Laurel concordar em casar com ele.
 E bom saber.  Laurel apertou a mo de Brett sem poder imaginar que aquele simples gesto era suficiente para excit-lo.  O que no entendo  a razo de voc ainda estar solteiro.
 Rico e bonito como sou?  Brett caoou.
 Alm de modesto  Laurel acrescentou com um sorriso.  Quantos anos voc tem?
 Trinta e trs.
 Mais estranho ainda.
 Voc fala como se eu j fosse um velho.  Brett protestou.  Alm disso, eu j fui casado, como voc bem sabe.
 Por uma noite.
D-me uma chance e teremos um casamento duradouro. O pensamento o aturdiu.
 Dediquei os ltimos anos inteiramente a minha empresa.
 Acredito que sim, mas isso no significa que tenha vivido como um monge.
 No, mas...  Aquele era um assunto que ele no gostava de comentar. Por outro lado, Laurel no era mais uma mera conhecida.
 As que eu quis levar a srio, no quiseram me levar a srio.
 Parece que voc no escolheu bem suas mulheres. Ou, ento, elas no primam pela inteligncia.
 Obrigado, mas a maioria prefere homens como Henry Davenport que frequentam as altas-rodas, no os novos-ricos como eu.
 Henry no  do tipo que casa.
 Para Henry, tudo  um jogo, ao contrrio do que acontece comigo. Mas, apesar das diferenas, ns ramos to amigos que parecamos irmos. Envergonho-me de admitir que muitas vezes o invejei.
 Por causa do pai.
 No apenas. Ns ramos da mesma idade e competamos em todos os aspectos; escola, esporte e, mais tarde, mulheres. Houve uma, em particular, chamada Mriam. Ela era de famlia tradicional como os Davenport. Eu j estava formado e trabalhando em um escritrio de investimentos quando nos conhecemos. Samos algumas vezes e o namoro estava indo bem. Apaixonei-me e resolvi propor casamento. No cheguei a faz-lo. Quando descobriu que eu era filho da governanta, ela me trocou por Henry.
 Sinto muito  Laurel murmurou e seu tom de verdadeira compaixo o tocou fundo.  Por voc. Porque por mim e por Jnior, estamos contentes que no tenha dado certo. Ou no estaramos aqui agora.
Um pensamento surpreendente. Porque ele no conseguia imaginar Laurel em outro lugar que no fosse a seu lado?
 Nada  por acaso, no acha?  Laurel continuou.  Se eu no tivesse perdido meus bens, estaria casada com Charles. Voc, se tivesse dinheiro naquela poca, teria casado com Mriam. E Jnior no existiria. O destino tem caminhos insondveis.
 O que voc gostaria que o destino lhe reservasse?  Brett perguntou aps um instante.
Laurel fechou os olhos como se estivesse refletin-do. Brett interpretou o gesto como um sinal e pousou seus lbios nos dela com suavidade. Queria muito mais. Mas sabia que precisava ter pacincia. Por isso, afastou-se.
No esperava que ao abrir os olhos, Laurel fosse demonstrar desejo. Hesitou. Tinha medo de interpretar errado e pr tudo a perder. Mas a prpria Laurel cuidou de resolver a questo ao tomar a iniciativa de um outro beijo.
Dessa vez, por mais que lutasse para manter o controle, Brett no conseguiu. Desejava-a demais. E, ao corresponder a seu ardor, Laurel provou que tambm o queria.
Ao beij-la no pescoo, Laurel se ps a gemer. Abraou-a com fora e ela o acariciou nas costas e nos ombros. De repente, eles estavam fazendo amor como acontecera em Reno. Com a mesma intensidade. E quando Laurel comeou a lhe mordiscar o lbulo da orelha, ele teve de se afastar para no explodir de paixo.
Laurel estava corada e arfante. Faltava pouco para a situao sair completamente do controle.
Seria to fcil.
O corao de Brett batia forte e sua respirao estava acelerada. Ele queria colocar a culpa no excesso de emoes que haviam vivido aquele dia. No podia. Porque a verdade era que ele sonhava por aquele momento desde o encontro em Reno. E foi ainda melhor do que antes.
CAPITULO VIII
A manh daquele sbado, Laurel estava pronta para dar incio ao trabalho de decorao do quarto de beb. O tema, aps pesquisas em vrias lojas infantis e revistas especializadas, seria o alfabeto em letras bem coloridas.
Sentada no cho, Laurel imaginou o quarto terminado com os protetores do bero e as cortinas com as letrinhas. Mas antes que se desse conta, seus pensamentos voltaram para a noite anterior. Ainda podia sentir os beijos de Brett em seus lbios, sentir seu calor por todo corpo.
Durante a noite, seu relacionamento com Brett chegou a parecer real. Assim como aconteceu em Reno. Porque era mais do que atrao fsica. Era algo que ela temia definir.
Brett a mimava, a fazia se sentir protegida e amparada. No queria que fosse assim. Mas era. E isso a preocupava porque estava firme em sua opinio de contar apenas consigo prpria e Brett estava se tornando uma constante em sua vida. No apenas como pai de seu filho, mas como homem.
 Bonito traje  Brett brincou ao v-la sentada no cho com a camiseta preta e laranja da universidade de Oregon e a bermuda azul-marinho que ele lhe havia emprestado.
Laurel encolheu os ombros. Antes, usava short e camiseta apenas para malhar. No sabia o que estava perdendo em conforto. Agora, sempre que ficava em casa, colocava-se  vontade. No apenas em matria de roupa, mas de ps e cabelos porque tambm estava adorando andar descala e prender os cabelos em um rabo-de-cavalo.
 Voc deve saber.
 Sei que  confortvel e que fica melhor em voc do que em mim  Brett respondeu com um sorriso.
 Obrigada.
 Acho que d para quebrar o galho, mas se preferir que eu lhe adiante algum dinheiro para algumas compras, basta dizer.
 Agradeo a oferta, mas estou bem.  Ela no podia se arriscar a sair e gastar o que no tinha. Enquanto as roupas de Brett servissem, ela esperaria. A no ser,  claro, que as lojas entrassem em liquidao e ela pudesse comprar uma ou duas roupas para sair.  Sarah prometeu me dar algumas de suas roupas de gestante e Debbie ficou de perguntar  cunhada se ela tem algo para me emprestar.
 Voc ir usar roupas de segunda-mo?  O tom de voz foi de reprovao mais do que de espanto. Laurel ficou surpresa. A situao dele, afinal, fora similar quando criana.
 E se eu cobrar juros pelo emprstimo?  Brett props.
 No, obrigada. Estou satisfeita por ter conseguido roupas emprestadas.
Brett franziu o rosto.
 Ser que eu ouvi direito? Voc prefere roupas usadas a comprar novas?
 Pessoas em minha condio no tm escolha.
 Voc tem e sabe disso.
O tom de Brett a irritou. Parecia estar falando com um esnobe. 0 Brett que ela conhecia era seguro de si, mas humilde. O que remetia  velha certeza de que ela no sabia muito a respeito dele.
 No se esquea de que tenho um oramento a cumprir  Laurel murmurou, desapontada.
Brett sentou-se ao lado dela.
 E no se esquea de que quero uma decorao nova e bonita.
 Antiguidades tambm se aplicam  ordem? O outro dia, quando fomos pesquisar as lojas do outro lado do rio, voc gostou de vrias peas.
  Pensei que estivssemos apenas dando uma olhada. No me passou pela cabea que voc poderia estar cogitando comprar objetos usados.
 Antiguidades no podem ser chamadas de objetos de segunda-mo. Alm disso, combinariam perfeitamente com o estilo da casa.
 No, Laurel. Quero tudo novo.
 O que deu em voc, Brett?  Laurel estranhou o tom autoritrio.
 Voc no entenderia.
 Tente explicar.
 Voc viveu em ambiente de luxo.
 Ter dinheiro no significa no ter problemas.
 Eu sei. Mas cresci vendo minha me trabalhar sem poder comprar roupas novas. A no ser em raras ocasies, eu usava o que me davam.
 Ao menos voc tinha roupas para trocar.
 s vezes preferia no ter.
Laurel mordeu o lbio. Brett guardava boas, mas tambm ms lembranas da infncia. Ela prpria se lembrava de ter ficado escandalizada quando uma colega lhe disse que iria ao baile com um vestido comprado em um brech.
 Crianas e jovens so cruis s vezes.
 Voc no faz ideia  Brett respondeu.
Laurel fazia ideia da capacidade dos adultos de serem cruis. Ela tambm havia sofrido. Sua vontade era abraar Brett e eles se consolarem mutuamente.
 Eu nunca pertenci ao grupo. Eles apenas me toleravam e demonstravam isso.
  Mas agora voc vive nesta linda casa e tem dinheiro para fazer tudo que quiser.  Laurel colocou a mo sobre a dele.  Inclusive comprar apenas mveis e objetos novos.
 Exatamente  Brett concordou.  Talvez voc esteja pensando que sou excntrico, mas eu me dou o direito de escolher o que quero para minha casa, quando custei tanto a adquiri-la.
 Farei apenas o que voc quiser, Brett  Laurel prometeu.  Mas se mudar de ideia...
  No mudarei. No sou do tipo que muda de ideia. Nunca.
Laurel baixou os olhos. Aquelas palavras confirmavam o que ela j sabia. Era intil ter esperana de que algo mais pudesse surgir entre eles.
 No me lembro de ter visto letras coloridas nas lojas que visitamos  disse Brett e a questo foi encerrada. O beb era o motivo de estarem juntos. Nada mais.
 Eu vi blocos de madeira na seo de brinquedos e a ideia surgiu.
Brett concordou com um gesto de cabea.
 De que cor sero as paredes?
 Marfim. Usarei tinta acrlica no-txica. Brett sorriu.
 O quarto ficar lindo.
 Acho que sim.  Laurel estava gostando daquele trabalho. Muito mais, alis, do que o que fazia no escritrio. Decorao era algo interessante e criativo.  Mais tarde, quando o beb estiver em idade de alfabetizao, as letras sero teis.
 Como eu disse, voc pensou em tudo  Brett repetiu.
 Ao menos aqui ele ter um lugar especial. Meu apartamento ser pequeno e simples.
Os olhares se cruzaram e Laurel precisou engolir em seco.
 Voc  bem-vinda aqui pelo tempo que quiser  Brett tornou a dizer.
Laurel teve uma sensao estranha de repente. Uma borboleta parecia estar voando em seu estmago. Ela tentou atribu-la  emoo de ter ouvido aquela doce proposta de Brett. Mas, ento, a sensao se repetiu.
O beb. S podia ser ele!
Brett encarou-a.
 O que houve?
 Acho que o beb mexeu.
 Tem certeza?
Laurel fez que sim e colocou a mo de Brett sobre sua barriga, feliz por dividir aquele momento com ele. Alegrias e emoes como aquela significavam muito para os pais. Ao pensar nisso, uma onda de culpa a inundou. Assim que tivesse condies de se mudar, Brett perderia essa oportunidade.
Outro movimento.
 Voc sentiu?
 No. No acha que ainda  cedo demais?
 E agora?  Laurel reposicionou a mo.
No. Sua barriga est dura. Antes ela era macia...
 S pode ser o Jnior. Senti outra vez. E voc?
Brett fez que no.
 Talvez seja cedo para voc perceber, mas algo est acontecendo aqui dentro  Laurel garantiu com um sorriso de glria.
 Nessas horas, acho que todo pai sente um pouco
de inveja da me.
 Meu pai costumava dizer...  A voz de Laurel tremeu diante das lembranas amargas da separao.  O que direi ao beb sobre seus avs?
 Ainda falta muito tempo.
 Um dia eu terei de lhe contar a verdade.
  D tempo ao tempo. At l, voc e sua me podem estar reconciliadas.
  Minha me no quer saber de ns  Laurel declarou com forte impacto.
 Mas ela continua a ser sua me. Laurel respirou fundo.
 Voc ainda no conhece toda a verdade sobre Serena Worthington. Antes de usar seu ltimo crdito em milhagens para um vo para a Frana, minha me pediu que eu comeasse a cham-la por seu nome quando nos encontrssemos porque ser me de uma mulher de vinte e trs anos e grvida a prejudicaria em sua busca de marido.
Brett estendeu os braos em um oferecimento de consolo.
 Venha c.  Laurel no se furtou. Era to bom contar com um refgio nas horas tristes.  Sua me no sabe o que est perdendo.
 Ela no se importa  Laurel murmurou. A verdade era que a indiferena da me a estava magoando mais do que queria admitir. E era exatamente por isso que no podia esquecer a lio. Por mais que desejasse se aninhar na proteo dos braos de Brett, ela precisava encontrar seu prprio caminho. Ele fora claro, afinal, ao lhe propor casamento: dar uma famlia a Jnior. Um motivo nobre de certa forma, mas que era inaceitvel para ela porque jamais se casaria se no fosse por amor.
Com o que restava de sua fora de vontade, Laurel se afastou dos braos de Brett.
 Nunca serei como minha me.
Que dia! Brett desceu do carro e no esperou para entrar em casa para afrouxar o n da gravata.
O mercado havia oscilado durante todo o dia e fechado em baixa. Choveram ligaes por parte dos investidores e ele teve dificuldade para acalmar alguns mais exaltados. Mas tudo isso,  claro, fazia parte de seu trabalho. No era raro que tivesse de permanecer no escritrio at tarde.
Ainda bem que pudera contar com Debbie para levar Laurel para casa ao trmino do expediente normal. No queria que Laurel se cansasse. Ela ficaria ao lado dele de bom grado, mesmo que o atraso fosse de duas ou trs horas, como naquele dia. Sua disponibilidade e seu empenho o surpreendiam sempre. Ningum poderia imaginar que Laurel havia sido uma patricinha durante toda sua vida. Ele a respeitava por sua determinao em vencer. No importava que ela estivesse se saindo melhor como decoradora do que como funcionria da MGI.
Fazia duas semanas que o mdico havia coletado o sangue de Laurel para realizar alguns exames. Brett sabia que a ansiedade de Laurel era um dos motivos pelos quais ela mergulhava to fundo no trabalho. Estava acontecendo o mesmo com ele. Mas, ao contrrio de antes, a empresa no fora remdio suficiente para faz-lo esquecer as preocupaes. Agora, o trabalho se tornara um motivo adicional para ele pensar em Laurel e desej-la.
Laurel invadira seu sangue e seus sonhos.
Antes que tivesse chance de introduzir a chave na fechadura, a porta foi aberta.
 Ol  Laurel o recebeu com um largo sorriso. Brett reparou que ela estava usando uma roupa que ele ainda no conhecia.
 Voc est linda. Vestido novo?
 Sim. Eu o comprei hoje em uma liquidao quando sa para almoar com Sarah. Devo a voc. Consegui economizar alguma coisa graas ao oramento que me ajudou a preparar.
Brett fez uma reverncia.
 Sempre ao seu dispor. Laurel deu uma risadinha.
  Voc deveria escrever um livro para pessoas como eu, que no tm noo sobre o valor do dinheiro.
 Agora voc tem.
 Porque voc  um bom professor.  Laurel olhou para baixo e acariciou o prprio ventre.  Est notando como Jnior cresceu?
Brett vinha notando as diferenas sutis no corpo de Laurel, dia aps dia. Suas formas estavam mais arredondadas e os seios mais volumosos. E os cabelos mais brilhantes. Se isso fosse possvel, como futura me Laurel estava se tornando a mulher mais sexy que ele j vira. Tanto que, aps o ltimo beijo, ele decidiu manter uma maior distncia com receio do que poderia acontecer caso tornassem a se beijar.
 Agora voc est finalmente parecendo grvida.  Brett cheirou o ar.  Que aroma delicioso  esse?
Laurel sorriu e pegou-o pela mo.
 No estrague minha surpresa. Feche os olhos e siga-me.
Brett fechou os olhos e sentiu o toque macio em sua mo. Estava sentindo falta da proximidade de Laurel. Da seda daqueles cabelos perfumados sobre seu rosto, sobre seu peito, sobre todo seu corpo.
Desejava-a como jamais desejara outra mulher.
E isso significava a necessidade de aprofundar a distncia entre eles. Antes, porm, seria preciso que Laurel desse o sinal. O sinal que nunca acontecia e que no aconteceria at Laurel descobrir que j havia crescido o suficiente e se tornado a mulher firme e decidida que queria ser.
 Agora pode abrir os olhos  disse Laurel.
Brett pestanejou. A sala de jantar parecia ter sado das pginas de uma revista ou de um programa de Martha Stewart, a dona do programa feminino mais famoso dos Estados Unidos. Havia uma mesa oval de cerejeira com seis cadeiras elegantes em estilo ingls tpico do sculo dezoito de nome Chippen-dale e um aparador com gabinete. Como objetos de decorao, Laurel colocou gravuras de plantas, velas de variados tamanhos e cortinas. Flores frescas arrematavam o ambiente.
Brett se encaminhou para a mesa com a respirao suspensa. Mal podia acreditar que estivesse em sua prpria casa. A no ser pelas porcelanas de sua av, tudo ali era novo. Inclusive a toalha de damasco, os talheres de prata e os copos de cristal.
 Estou no endereo certo?  Brett brincou. Os olhos de Laurel brilharam de entusiasmo.
 Voc gostou?
 Adorei.  Brett queria ter uma casa onde se sentisse  vontade e que fosse bonita para poder receber convidados. Laurel havia atingido ambos os objetivos.  Voc fez um trabalho excelente.
 Obrigada  Laurel agradeceu, corada pelo elogio.  Sente-se antes que o jantar esfrie.
 Voc realmente o preparou sozinha?
 Sim, mas foi algo simples porque precisei correr para conciliar a sala de jantar com a cozinha.
 O que quer que voc tenha feito, estar perfeito.
 Volto em um minuto.
A salada j se encontrava na mesa. Em seguida, foi trazida uma tigela fumegante de espaguete  bolonhesa e um cestnho com po de alho.
Brett esperou que Laurel se sentasse para abrir a garrafa de vinho. Para demonstrar seu apreo, props um brinde.
 A voc. Por ter transformado esta casa em um lar.
Laurel encostou seu copo ao de Brett e eles brindaram. O segundo brinde foi proposto por ela.
 A nosso beb saudvel e perfeito.
 Que assim seja!
  Espere!  Laurel exclamou antes que Brett levasse o copo aos lbios.  Voc no entendeu. O resultado do exame de sangue chegou hoje. Est tudo certo com Jnior.
Um n de emoo fechou a garganta de Brett. Seus olhos pousaram nos olhos marejados de Laurel e ele no pde controlar o mpeto de ir at ela e abra-la.
  Graas a Deus! Eu estava comeando a ficar preocupado com a demora.
 Tanto eu quanto o beb estamos com a sade perfeita  Laurel murmurou, aconchegada a Brett que sentiu o corao inundar de alvio e de felicidade para em seguida se retrair ao afastamento sbito e inesperado.
 No se iluda  Brett falou consigo mesmo.  Toda essa emoo foi por causa de Jnior apenas.
Mas o momento era importante demais para ele pensar em si prprio. Saber que seu filho nasceria saudvel era a maior felicidade de sua vida. O peso das preocupaes que ele vinha carregando nos ombros foi retirado. E tambm o de Laurel. Porque ele nunca vira seus olhos azuis to brilhantes e seu sorriso to iluminado.
 Eu tinha inteno de lhe contar assim que recebi o telefonema, mas Debbie achou melhor voc no ser interrompido porque estava nervoso. Ento resolvi esperar at que chegssemos em casa.
 Admito que foi melhor porque agora poderemos comemorar com tudo que temos direito. Improvisaremos uma sobremesa aps o jantar e danaremos.
E enquanto danavam, ele a beijaria...
Brett sorriu embora, no ntimo, no quisesse esperar mais. Precisava dar um empurro na sorte para convencer Laurel a ser sua esposa. O caminho mais curto, pelo que ele podia deduzir, era dar subsdios para que Laurel se sentisse segura e independente,
  O que voc acha de darmos uma festa para nossos clientes especiais?
 Uma tima ideia  Laurel concordou de imediato.  Eu farei uma pesquisa pela cidade e relacionarei os lugares mais elegantes.
 Estava pensando em abrir a casa para os convidados. Voc aceitaria o encargo de organizar a festa e de desempenhar a funo de anfitri?
A expresso de Laurel mudou. Parecia perplexa.
 Mas a casa ainda no est pronta! Eu j encomendei os mveis para a sala de estar, mas Rene no soube afirmar quando sero entregues. A estante de livros, por exemplo, s ficar pronta daqui duas semanas.
 Faa Rene pressionar os fabricantes para que marquem a data de entrega. Gostaria que a festa fosse marcada para trinta dias a partir de hoje. No mximo sessenta. Acha que  pedir demais?
 Verei o que posso fazer.
Brett fez um movimento de aprovao com a cabea.
  Otimo. Vou estabelecer uma verba para isso. Na segunda-feira, voc procura Debbie e estuda com ela a melhor data para o evento. O resto ficar por sua conta, inclusive a distribuio de seu horrio de trabalho, entre os servios internos e os externos.
 No quero receber tratamento diferenciado.
 Voc ter de se ausentar da empresa para resolver uma srie de detalhes, Laurel. Isso  necessidade, no concesso. Lembre-se de que ter de agradar os investidores de maneira geral, desde mecnicos aposentados a homens importantes como Henry Davenport.
 Ser um desafio interessante  Laurel admitiu.
Brett sentiu-se bem ao ver o entusiasmo de Laurel.
 Por que no anota as ideias que forem surgindo para conversarmos a respeito daqui alguns dias? Sobre as despesas, no faa economia na contratao de pessoal de suporte. No quero sobrecarreg-la.
 No se preocupe. Estou em excelentes condies.
 Confio em voc.
Um amplo sorriso surgiu nos lbios de Laurel.
  No sabe como fico contente em ouvi-lo dizer isso.
Seria um grande passo para Laurel. E para o casamento deles, Brett pensou.
  Conte comigo para ajud-la no que precisar. Estamos juntos, Laurel. Nunca esquea isso.
 No esquecerei.
CAPTULO IX
Brett estava parado  porta do quarto de Laurel e mal conseguia respirar. Laurel havia sado do banho e estava usando apenas um camiso enquanto penteava os cabelos longos e ondulados que pareciam ainda mais brilhantes por estarem midos.
Estava acostumado a v-la de camiso, mas sempre com uma cala comprida ou uma bermuda. Naquele momento, ela deveria estar apenas de calcinha por baixo.
 Desculpe. Eu estava passando e a porta estava aberta...
 No tem importncia. Acabei de sair do banho e estava comeando a me arrumar para a festa. Parece incrvel que ser esta noite, no?
  verdade  ele concordou com voz rouca. Aps quase dois meses de preparativos, o dia da festa havia chegado. Mas imaginar o que Laurel estava usando ou no estava usando em matria de vesturio era suficiente para faz-lo esquecer tudo mais.
 Voc est precisando de alguma coisa? E como!
Brett suspirou. Ele havia conseguido se controlar todo aquele tempo e mantido distncia por receio de assustar Laurel e perder as poucas chances que poderia ter com ela. Mas agora, vendo-a to sexy e to perfumada...
Ele passou uma das mos pelos cabelos em uma tentativa de se acalmar. O corao batia acelerado. O sangue parecia estar fervendo nas veias.
Balanou a cabea para afugentar os pensamentos e se ateve ao que viera fazer.
 Isto  para voc.  Ele entregou a caixa branca amarrada com uma fita de cetim amarelo que havia deixado do lado de fora.
 No precisava se preocupar  falou Laurel.
  Eu quis comprar para voc.  Ansioso para ver a reao de Laurel, Brett apressou-a a abrir a caixa.
Ela riu e colocou-a em cima da cama. Quando tirou a tampa e afastou o pape] de seda, deixou escapar uma exclamao de espanto.
 Oh, Brett!  o sorriso que ela deu valia o preo do vestido e muito mais.   o vestido mais lindo que j vi.
  Achei que combinava com sua pele, com seu jeito. - Brett havia visto aquele vestido azul-noite na vitrine de uma butique fina especializada em roupas para gestantes. O corte era impecvel e o decote bem pronunciado.  Sei que prefere comprar suas prprias roupas, mas como esta  uma ocasio especial, achei que voc no se importaria. Alm disso, o presente  merecido depois do trabalho que teve.
Laurel tirou o vestido da caixa e colocou-o na frente de seu corpo. Brett deu um sorriso de alvio por seu presente no ter sido devolvido.
 Alis, voc merece muito mais. 
  melhor parar com os elogios...  Laurel brincou, corada  ou eu poderei lhe pedir um aumento.
 No ser preciso. Voc merece esse aumento e eu vou d-lo.
O olhar de gratido provocou um n na garganta de Brett. Laurel precisava de pouco para se sentir feliz. Ele mal podia esperar para faz-la sua esposa e lhe dar mais do que um simples vestido.
 Bem, precisamos nos apressar ou acabaremos recepcionando os convidados vestidos como estamos.
Laurel desceu a escada como se flutuasse. Estava se sentindo uma princesa.
 Voc est deslumbrante  disse Brett, elegante com seu smoking preto.
 Voc tambm  Laurel respondeu. Brett estava to lindo, to msculo. Sentiu dificuldade de afastar seus olhos dos dele.
 D uma voltinha  ele pediu.
 O que achou?  Laurel perguntou, provocante.
 Voc est ainda mais bonita do que a casa.
 Desde que no parea to grande quanto ela!  Laurel brincou.
  Por enquanto, no. Depois...  Brett fez um sinal de dvida e os dois riram.
Dirigiram-se  sala de estar e Laurel olhou ao redor para se certificar de que tudo estava ordem para receberem os convidados. Fez um movimento afirmativo com a cabea ao examinar os arranjos de flores, as cortinas e as almofadas.
 Falta fazer alguma coisa?  Brett quis saber. Laurel tocou os brincos que estava usando. Eram de prolas. A nica jia que lhe restara e ela no queria perd-la. Verificadas as tarraxas, estava a ponto de dizer que no quando viu a gravata de Brett fora do lugar. Ao aproximar-se dele, Brett tirou o palet.
 Sinto como se estivesse sonhando.
 Eu tambm.
As mos de Laurel, de repente, estava na cintura de Brett. Nenhum dos dois falou. Ocasies como aquela no haviam faltado naqueles dois meses, mas aps aquela tarde do exame de ultra-sonografia, Brett no tornou a toc-la.
Laurel sabia que era melhor que Brett mantivesse distncia. Ao mesmo tempo, sentia uma falta imensa de seus beijos, de seus abraos. Independente do passado e do futuro, ela queria t-lo junto a si. Queria senti-lo junto a seu corao.
Laurel sorriu e uma sensao estranha se apoderou de seu corpo. De repente, suas mos pareceram adquirir vida prpria. Subiram ao pescoo de Brett e os dedos comearam a endireitar a gravata.
Ela tentou ignorar o calor que irradiava de Brett e a envolvia. Tambm tentou ignorar a fragrncia que se desprendia de sua pele.
 Tudo bem agora.
 No comigo  Brett retrucou, e antes que Laurel pudesse imaginar a que ele estava se referindo, beijou-a.
As necessidades que Laurel vinha tentando reprimir e ignorar, afloraram. Por mais que se esforasse por acreditar que no queria Brett e que ele era apenas o pai de seu filho, nada a fez se convencer disso.
Brett beijou-a com paixo e ela correspondeu, disposta a ir aonde ele a levasse. No havia mais ontem nem amanh. S o agora. E ela se deixou envolver pelas emoes embora soubesse que no poderia ter o que desejava.
Brett se afastou, ento, e sorriu para ela.
 Para dar sorte.
Para sempre, Laurel pensou. Seus sentidos estavam aguados. Era difcil respirar, quanto mais recuperar o controle. Pouco a pouco, porm, a pulsao foi voltando ao normal.
A campainha soou e o corao de Laurel quase parou.
 No momento certo  Brett declarou com um sorriso.
No para ela. As emoes se confundiam em seu peito: desapontamento, alvio e tambm remorso. Brett vestiu o palet e ofereceu o brao.
 Vamos dar as boas-vindas a nosso no to humilde lar?
A festa estava animada e Brett no podia estar mais feliz. Os convidados estavam se divertindo. Seu empenho em conversar com cada um de seus clientes e demonstrar seu profundo interesse em contar sempre com eles, contudo, fez com que perdesse Laurel de vista.
 Grande festa, Brett. Os tempos so bons. Sou capaz de apostar que ganharemos ainda mais dinheiro nos prximos dias.
Brett deu um tapinha no ombro de Alex Niles e concordou com ele. Em seguida, procurou com os olhos um dos mais importantes investidores da MGI, Marvin Crenshaw, um senhor de cabelos grisalhos que havia feito sua fortuna no setor imobilirio. Alm de ser dono de um rancho, possua uma vincola no vale de Willamette e resorts em Bend e na costa oeste do pas. O homem era difcil de lidar e provocava algumas dores de cabea em Brett, mas sua conta o compensava.
Brett avistou o homem alto com o chapu Stetson do qual nunca se separava e Laurel a seu lado.
O corao de Brett bateu mais forte. Laurel estava linda. Parecia uma deusa. O modo como penteara os cabelos, prendendo-os no alto, lhe dava a elegncia e o porte de uma bailarina. Os brincos de prolas eram sua nica jia. No era preciso mais.
O vestido estava perfeito nela. Parecia ter sido feito sob medida. O decote acentuava o volume dos seios. A saia esvoaante no escondia a gravidez, mas a realava. Laurel estava radiante. E to perto de lhe pertencer que Brett quase conseguia senti-la em seus braos. Como ainda sentia na boca o calor do beijo que haviam trocado.
Laurel estava dizendo algo que fez o sr. Crenshaw dar uma gargalhada. Em cinco anos de convvio, Brett jamais o vira sorrir, quanto mais rir. A faanha de Laurel era inacreditvel. Ao contrrio das outras pessoas que se sentiam intimidadas perante o milionrio ranzinza, Laurel parecia  vontade. Seus talentos, obviamente, estavam sendo desperdiados na MGI. Mas quando eles casassem...
 Boa noite, sr. Crenshaw  Brett se aproximou.
 Como vai, Matthews? Bonita festa. Fiquei impressionado com sua biblioteca. Talvez possa me emprestar alguns livros.  O homem se virou para Laurel.  No se esquea do que lhe falei, minha jovem.
 No esquecerei, Marv.
Marv? Ela o chamou de Marv? Ningum se atrevia a chamar o sr. Crenshaw pelo primeiro nome. Quanto mais daquele modo ntimo.
 E voc, no se esquea de me dar notcias de BK.
O homem concordou com um gesto de cabea.
 Por falar em BK, vou me despedir. Ele no gosta que eu fique fora de casa at tarde.  Marvin Crenshaw apertou a mo de Brett e beijou o rosto de Laurel.  No fique de p por muito tempo se no quiser ver seus tornozelos incharem.
 Terei cuidado  Laurel prometeu.  Ligue para mim.
 Ligarei. Boa noite.  O homem tocou a aba do chapu e se afastou em direo  porta.
Brett seguiu o homem com os olhos e de queixo cado. Aquele no podia ser o mesmo Marvin Crenshaw que o ameaava vez por outra a fechar sua conta. O cliente que no admitia que o fizessem aguardar ao telefone e que exigia que suas ligaes fossem retornadas de imediato.
 Ele  um amor de pessoa  disse Laurel.
 O qu?
 Sabia que ele tem um gato chamado Big Kitty? BK so as iniciais. O pobre ter de ser operado e Marv est preocupado. Voc deve ligar para ele.
 Para perguntar sobre o gato?
 Sim.
 Por que eu faria isso?
 Pela mesma razo que resolveu dar esta festa. Para mostrar a seus melhores clientes quanto eles significam para a MGI.
 Voc acha que uma ligao em carter pessoal faria diferena?
 Uma enorme diferena. Ele no tem ningum exceto o gato. Marv  um idoso solitrio que precisa de ateno. Faa com que se sinta especial.
  Mas ligar para perguntar sobre um gato?  Brett protestou mais uma vez.
 Um gato que pode ser o nico herdeiro de uma fortuna de bilhes de dlares.
Pela primeira vez desde a fundao de sua empresa, Brett no se importou com o dinheiro de um rico investidor. Naquele momento, ele s conseguia ter olhos e pensamentos para Laurel. Queria se manter tranquilo, mas o perfume de Laurel o incentivava a respirar fundo.
 Alis, eu o aconselho a mandar flores com votos de rpida recuperao.
Naquela altura dos acontecimentos, Brett faria qualquer coisa que Laurel lhe pedisse.
 Est bem.
O sorriso de Laurel o compensou. E tambm seu olhar de satisfao aps um gesto de surpresa,
 Voc  demais.
 Voc tambm  ela cochichou-lhe ao ouvido.
Todos pareciam estar se divertindo. Pela primeira vez, desde que comeou a trabalhar na MGI, Laurel sentiu que dera uma contribuio importante a seu empregador.
Os convidados a elogiavam no apenas pelo sucesso da festa, mas tambm por seu bom gosto na decorao da casa. Laurel se sentiu orgulhosa, mas fez questo de contar que havia sido assessorada por uma arquiteta de interiores.
Seu olhar cruzou com o de Brett em meio  pequena multido. O tempo parou e a msica se perdeu no ar. As conversas e os risos cessaram. Eram apenas ela e Brett. No a satisfazia mais saber que suas vidas estariam para sempre ligadas pelo elo do filho. Ela queria que Brett se tornasse parte de sua vida tambm. Queria-o como marido. Naquela noite ela teve certeza do que j sabia no fundo de seu corao.
Mas no podia ser.
No se casaria pelo motivo errado como fizera uma vez. Duas vezes, se contasse o noivado. Na vez definitiva, teria de ser por amor. No se conformaria com menos.
Com a mo sobre o ventre, Laurel desviou seu olhar e procurou outros rostos.
 Voc  a mulher mais linda de todas as presentes  uma voz sussurrou s costas de Laurel.
 Henry! Quando chegou?  Laurel o abraou e beijou.
 Alguns minutos atrs. Para no perder a fama de estar sempre atrasado.
 Brett me disse que voc estava na Europa.
 No parava de chover e eu pensei que para me molhar e olhar para o cu cinzento, poderia fazer isso em casa.  Henry deu um passo para trs.  Deixe-me olhar para voc. Para quando ser?
 O dia exato seria vinte e trs de dezembro.
 Oh, no! Voc precisa ter esse beb no dia de Natal.
Laurel sorriu. Henry fazia planos como se fosse to fcil encomendar o nascimento de uma criana por parto normal quanto reservar uma mesa em um restaurante.
 Bebs no marcam hora para nascer, portanto trate de no alimentar muitas esperanas.
Henry fez silncio por um minuto.
 O dia das bruxas est prximo. Ns poderamos aproveitar e organizar um baie de mscaras para comemorar seu casamento com Brett. Seria original, no?
 Sem dvida. Agora, por que no me conta sobre sua viagem?  Laurel mudou ostensivamente de assunto para consternao de Henry.
 Nada de casamento?
 Nada de casamento. Mas est tudo bem. Henry tomou um gole de champanhe.
 Ouvi comentrios sobre voc estar trabalhando na MGI.
 Estou.
 Gosta do que faz?
O tom de voz era de perplexidade. Laurel se lembrou de que seu tom de voz teria sido o mesmo alguns meses antes.
 Sim.
 Vamos, comigo voc pode se abrir.
 Bem, espero me sentir melhor em minha funo com o passar do tempo.  Ela no queria parecer ingrata, mas servio de escritrio no era seu forte.  Mas adorei organizar a festa e decorar a casa.
 Voc  a responsvel por isto?  Henry olhou ao redor.  Esquea seu emprego na MGI. Por que no trabalha como decoradora de interiores? Voc tem um talento inato.
 No tenho formao profissional.
 Estilo e bom gosto so qualidades que no podem ser ensinadas.
 Vou ter um beb. Quem vai querer me contratar?
 Eu  Henry respondeu.  Ajude-me com meu mausolu. Ele ainda  a imagem de meus pais. Quero ver minha marca no lugar onde vivo.
Por mais que Laurel quisesse agarrar a oportunidade, foi obrigada a recus-la.
 No posso.
 Voc pode. Fez um trabalho incrvel aqui. Admito que minha casa  maior e mais antiga, mas eu a compensaria pelo esforo.
Laurel hesitou. Rene havia lhe feito uma proposta para trabalharem juntas, mas elas ainda no haviam conversado em detalhes sobre o assunto. Laurel sentia-se no dever de continuar na MGI. Brett lhe estendera a mo no momento que precisara. Devia-lhe lealdade.
 No precisa me responder agora, mas pense a respeito.
 Pensarei.
 Pensar em qu?  Brett quis saber.
  Em colocar meu nome no beb se for menino  Henry respondeu antes que Laurel tivesse tempo de reagir.
Laurel deu uma risadinha, aliviada pela presteza de raciocnio de Henry e por seu bom humor.
 Seu nome?  Brett estranhou.
 Uma homenagem ao padrinho. No  uma boa idia?
 Padrinho?  Brett e Laurel repetiram ao mesmo tempo.
 Quem mais vocs convidariam para ser o padrinho? Se no fosse por mim, vocs no teriam... vocs sabem.  Henry cutucou Brett e lhe deu uma piscada.
Laurel teve sucesso. Ele teve sucesso.
No era uma vitria da MGI apenas, mas uma vitria pessoal para Brett. Ele estava mais do que satisfeito, no apenas pelo resultado da festa, mas por causa de Laurel. Ela havia se excedido e provado que seria capaz de sobreviver sozinha. Agora, talvez, aceitasse seu pedido de casamento.
Ele foi paciente. Deu-lhe no apenas um emprego, mas uma chance de descobrir seus talentos. Chegara o momento de saltar para a etapa seguinte.
Laurel estava na cozinha, dando instrues ao pessoal da limpeza. Assim que terminou de falar, ela se apoiou na mesa e ajeitou uma mecha de cabelos. Deveria estar cansada, mas no dava demonstrao. Continuava to linda que a festa no parecia ter terminado.
 Pronta para encerrar a noite?
 Quase.
Brett a segurou pela mo e a conduziu  sala.
 O que no deu para fazer hoje, fica para amanh.
 Mas...
 No se preocupe. Se o pessoal no der conta, a governanta assumir.
Laurel quis contestar a ordem, mas Brett a fez sentar no sof, tirou seus sapatos e massageou os ps como no outro dia.
 Voc  um mago nessa arte - Laurel elogiou.
 Voc  uma anfitri cinco estrelas. A festa esteve impecvel.
 No de todo  Laurel o corrigiu.  A banda chegou tarde e as frutas poderiam estar mais frescas.
 Duvido que algum tenha notado.
 Eu notei.
 Para mim, a noite foi um sucesso  Brett insistiu.  Mas se voc no ficou satisfeita, da prxima vez poder fazer melhor.
 Da prxima vez?  Laurel perguntou, surpresa.
 Estava pensando na festa de Natal.
 Acho que seria divertido se eu no estivesse s voltas com o nascimento do beb. Ou, talvez, com fraldas e mamadeiras.
 Tem razo. Talvez possamos chamar os amigos e oferecer uma festa de confraternizao no incio de dezembro.  O silncio de Laurel fez Brett interromper a sugesto.  Voc no parece muito entusiasmada.
 Acho estranho  Laurel confessou com os olhos voltados para a televiso para no ter de encar-lo.
 Por qu?
 Na MGI todos sabem que fomos casados e que vamos ter um beb. Tratam-nos de maneira normal como se aceitassem nossa situao. Mas esta noite, em particular, senti que eles se dirigiram a ns como se fssemos realmente casados.
 Isso te incomoda?
 No que incomode, mas est fazendo com que eu comece a me sentir assim.  Brett precisou se conter para no abra-la.  Ns ficamos juntos o tempo todo, afinal, e nos beijamos algumas vezes.
Brett quase esfregou as mos. Aquela era a chance que ele estava esperando. Mas, como conhecia Laurel, sabia que poderia colocar tudo a perder se fosse com muita sede ao pote.
 Isso  mau?
 No. Sim. Eu no sei. Quando estou com voc, no. Mas quando estou sozinha...
  Voc no precisa mais ficar sozinha. Sei que quer ser independente. Mas j deve estar claro para voc que eu sou a ltima pessoa a pensar em lhe tirar a independncia que conquistou. Laurel mordeu o lbio.
 At que ponto voc considera nossa ligao? Para sempre, Brett pensou. Por toda eternidade.
 At onde desejarmos. Ainda penso que Jnior precisa de uma famlia. De um pai e de uma me casados e que vivam juntos.
 E de pais que se amam?
Amor? Amor no fazia parte do trato. Ele no poderia mentir para Laurel.
 Gosto de voc.
Brett esperou que Laurel retribusse sua sinceridade. Quando ela demorou a responder, ele sentiu o ar lhe faltar.
  Tambm gosto de voc  ela respondeu por fim.  Mas no sei se isso  suficiente.
 No  melhor do que nada?  Brett insistiu.  Ou preferiria que eu tivesse mentido?
 No  Laurel respondeu e baixou os olhos. Brett segurou-lhe a mo.
 Eu posso no te amar, Laurel, mas gosto demais de voc. Mais do que j gostei de outra mulher. No acha que isso  o bastante para ao menos tentarmos?
CAPITULO X
Setenta e duas horas foi o tempo que Laurel levou para descobrir que havia cometido um erro ao concordar com a proposta de "tentativa". Um erro colossal. Porque em algum momento naqueles ltimos dois meses, ela se apaixonou por Brett. Talvez tivesse acontecido na festa ou nas trocas de beijos. Os sinais existiram mas foram ignorados. At aquela tarde, no escritrio, quando se tornou impossvel continuar negando a verdade.
Ela estava trabalhando e Brett se aproximou de sua mesa para avis-la que sentia muito mas que no poderiam jantar juntos aquela noite.
Simples assim. E complicado. A constatao assustou Laurel. Agora, Brett teria controle sobre ela, O que era algo insuportvel diante da experincia vivida com seus pais.
Nem sequer seu velho amigo, Henry Davenport, em cima de uma escada para pendurar as cortinas do quarto do beb, estava conseguindo distra-la.
 Que tal?  Henry perguntou.
O drapeado precisava de ajuste e Laurel avisou-o. Mas no conseguiu prestar ateno enquanto Henry ajeitava o franzido. No se conformava com o que havia acontecido. Como podia ter se apaixonado por Brett? Seus sentimentos vinham de encontro a tudo que planejara. Para piorar a situao, Brett no a amava. Em nenhum momento ele lhe deu outro motivo para se casarem que no fosse Jnior.
Por outro lado, como podia ter ficado indiferente se Brett esteve a seu lado todo o tempo quando mais precisou de ajuda? Foi Brett quem a salvou ao lhe confiar a decorao de sua casa e ao lhe dar um emprego quando ela no tinha nenhuma experincia. Mais ainda, ele lhe ofereceu um teto e a nomeou como anfitri de seus clientes mais importantes. Como se no bastasse, Brett a ensinou a administrar seu prprio dinheiro e acompanhou todas as fases de sua gravidez com carinho e desvelo.
Ainda assim, Laurel questionava seus sentimentos. Seria amor verdadeiro ou apenas gratido? Ela precisava saber a resposta, mas tinha medo de descobrir. Porque a realidade muitas vezes machucava. E a verdade era que, apesar de sua determinao em trabalhar e cuidar de sua prpria vida, desde sua chegada a Portland ela havia se entregado por completo  proteo de Brett.
 E agora?  Henry perguntou.
 Agora  o lado direito que precisa de ajuste. Henry voltou ao trabalho e Laurel conferiu as letras que havia fixado na parede.
Sim, ela estava trabalhando e economizando, mas sempre ao lado de Brett. Se continuasse sob sua proteo acabaria desistindo de seu sonho de independncia e recusava-se a abandon-lo. As mulheres de sua famlia aceitaram essa posio e no se deram bem. No caso de Brett seria ainda pior porque ele teria controle no apenas sobre o dinheiro, mas sobre seu corao.
Era preciso romper o ciclo. Era preciso assumir sua prpria vida. Por ela e tambm por seu filho.
Laurel tinha certeza de que esse era o nico caminho. Ela precisava estar segura de si e de seu amor por Brett. Precisava saber se o que sentia por ele era realmente amor ou gratido.
E no futuro, talvez, quando tivesse certeza, Brett tambm teria a chance de se perguntar se queria apenas uma famlia para seu filho ou para todos eles.
 Ficou bom desta vez?  Henry perguntou com um suspiro.
 Perfeito.
Ele desceu da escada no mesmo instante, dobrou-a e colocou-a em um canto..
 Obrigada, Henry. Voc me fez um grande favor.
 E sempre um prazer ajud-la, mas agora que o trabalho est feito, que tal voc me contar o verdadeiro motivo que a fez me chamar aqui esta noite? Confesso que no acreditei nessa urgncia de pendurar uma cortina.
 Eu queria falar com voc sem que Brett estivesse por perto  Laurel confessou. - Trata-se daquela pergunta que voc me fez sobre a decorao de sua casa. O convite foi srio?
 Sim  Henry confirmou sem pestanejar.  Voc resolveu aceit-lo?
 Resolvi  Laurel respondeu com tanta firmeza que quase no reconheceu a prpria voz.  Falei com Rene, a arquiteta, e ela quer me contratar como sua assistente apesar da iminncia de minha licena de maternidade.
 Voc j falou com ela a meu respeito?
 No. Queria ter certeza de que era minha colaborao que Rene desejava, no a chance de um bom negcio. Henry sorriu.
 Voc  surpreendente.
 Estou tentando amadurecer  Laurel confessou.  Mas ainda tenho um longo caminho pela frente.
 O que Brett acha disso?
 Ele ainda no sabe. O sorriso desapareceu.
 Brett no ir gostar.
 Sei que no  Laurel admitiu , mas se eu no sair daqui e da MGI, ns no teremos nenhuma chance.
 No amor?
Laurel fez que sim e acariciou o ventre. O beb os havia unido, mas dependia apenas dela e de Brett ficarem juntos. De sua parte, ela pretendia fazer tudo que estivesse a seu alcance.
 Gostaria que fssemos uma famlia, mas antes preciso ter certeza de alguns detalhes.
 Quando aceitar o emprego que Rene ofereceu, traga-me uma cpia do contrato.
 Oh, Henry!  Laurel o abraou, agradecida.  Obrigada.
 Amigos so para essas coisas.
 Voc  um grande amigo. Espero que possa contar com seu apoio tambm quando encontrar um apartamento, caso exijam um fiador.
 Tenho duas sutes de uso exclusivo de hspedes. Acho que seria ideal para voc e para a criana, ao menos provisoriamente.
 Eu no sei se devo.
  Continuaria perto de Brett. Pense como isso seria conveniente quando o beb chegar.
Sim, seria, mas ela no queria abusar da bondade de Henry. E como ficaria a luta por sua independncia se seu protetor apenas mudasse de nome? A no ser que Henry concordasse em lhe cobrar um aluguel.
 Est bem, mas desde que eu possa lhe pagar.
 Se fizer questo, eu estipulo um valor, Laurel, mas confesso que no entendo voc. Pensei que aquele anel daria para cobrir todos os dbitos deixados por seu pai e ainda lhe garantir uma pequena moradia.
Laurel encarou-o, espantada.
 De que voc est falando?
 De seu anel de casamento.
 Est se referindo ao anel que me deu, cuja pedra chamei de iceberg que afundou o Titanic?
 Sim. O que fez com ele?
 Nada. Eu o guardei.
 V busc-lo.
Laurel foi ao quarto, apanhou o anel na caixinha de msica e voltou para junto do amigo.
 Aqui est.
Henry pegou o anel, olhou para ele e fitou-a com o cenho franzido.
  de admirar que voc, justamente voc, no saiba distinguir uma jia de uma bijuteria.
Laurel examinou a pedra transparente e pesada.
 No  um zircnio, Laurel,  um diamante. Laurel perdeu a voz. Se tivesse descoberto antes sobre o anel, sua vida teria sido diferente. No precisaria ter vendido tudo que possua. No teria se mudado de Chicago para Portland. No teria se apaixonado por Brett.
Henry colocou o anel no dedo de Laurel.
 Sua recompensa por ter participado da brincadeira de casamento.
Laurel olhou para o anel com incredulidade. A luz refletia nas faces da pedra e danava nas paredes e teto do quarto. Uma pedra verdadeira. Quando poderia ter imaginado? Tinha a impresso de estar vivendo um sonho. A qualquer momento, o despertador tocaria e ela voltaria  realidade.
 Todos ganham recompensas to caras?
 Alguns ganham mais do que outros.
Aquilo no fazia sentido. Henry tinha dinheiro para dar e vender, mas por que gastaria uma fortuna? A no ser que...
 Voc sabia que eu estava falida, no ?
 Sabia.
A nica pessoa a par de sua situao alm de seus pais era Charles Kingsley.
 Charles prometeu que no contaria a ningum.  Ele mentiu. Ligou para dizer que eu deveria cancelar sua presena na festa de primeiro de abril por causa de sua precria situao financeira.  Henry encarou-a.  Fiquei duplamente triste. Pensei que fssemos amigos o suficiente para voc prpria me contar.
 Desculpe, Henry. Eu estava sem dinheiro e temi que voc no fosse querer me ver mais  Laurel confessou, envergonhada.
 Posso ser esnobe  Henry retrucou , mas sou um esnobe leal.
Laurel baixou os olhos e Henry forou-a a encar-lo.
 Estava errada. Eu o julguei mal.
 Esquea isso.  Henry sorriu.  Mas, voltando ao anel, agora voc ter condies de pagar o aluguel que eu quiser cobrar.
Era incrvel. Ela era dona de uma pequena fortuna e no sabia. A partir daquele instante, no precisaria mais depender de Brett.
 Eu posso mudar de casa, eu posso comprar um bom enxoval para o beb. Eu posso... No, eu no posso  Laurel murmurou aps um momento de reflexo.  Preciso resolver minha situao por mim mesma.
No minuto seguinte, Laurel estava devolvendo o anel.
 No posso aceitar.
  Voc o mereceu.  Henry colocou o anel de volta no dedo de Laurel.  Qualquer um que jogasse com os dados teria ganhado o prmio.
 Qualquer um?  Laurel franziu o rosto.  Ento os dados estavam marcados?
Henry no tentou engan-la.
  Sim, mas no permita que um orgulho idiota a impea de conseguir o que quer e de dar uma famlia a seu filho. Todos ganham uma recompensa para participar. O anel coube a voc.
 Se eu ganhei o anel, qual foi a recompensa de Brett?
 Voc.
O jantar com os lderes da comunidade se estendeu at altas horas. Brett estava cansado, mas nada o impediria de parar em uma floricultura e comprar rosas para Laurel. O plano estava indo bem. E ele pretendia melhor-lo ainda mais. E rpido. No contava com muito tempo mais para marcar o casamento. Queria legalizar sua situao com Laurel antes do nascimento do beb.
Ele entrou em casa e ouviu vozes. Seguiu p ante p em direo  sala de estar e viu Laurel sentada no sof bem junto de Henry. No mesmo instante, um alarme soou em seus ouvidos. Sua mo apertou o pequeno buque com tanta fora que poderia ter ferido as mos com os espinhos.
 Ol  cumprimentou-os com um sorriso frio. Laurel, no entanto, lhe deu um sorriso carinhoso.
 Como foi o jantar?
 Demorado. Henry se levantou.
 Eu estava de sada, Brett. Espero que no se ofenda.  Ele olhou para Laurel.  Falo com voc amanh. Boa noite.
Brett esperou at que a porta fosse fechada.
 O que Henry queria aqui?
 Ele veio me ajudar a pendurar as cortinas no quarto do beb. Estou pesada demais para subir em escadas.
 Eu a teria ajudado.
 Achei que voc chegaria tarde e cansado.
Ele estava cansado, mas preferia passar a noite inteira trabalhando a encontrar Henry cuidando de seus assuntos particulares.
 Como ficaram?
 Perfeitas. Agora s falta o beb.  Laurel indicou as flores na mo de Brett.  So para mim?
Brett as entregou.
 Obrigada. So lindas.
Laurel foi apanhar um vaso na cozinha e Brett a
seguiu.
 Elas me lembram seu perfume.
 E verdade  Laurel concordou com um sorriso.  Voc foi muito gentil e atencioso.
Brett no havia notado nenhuma outra flor na casa. Ao menos Henry no trouxera presentes.
 Brett, estive pensando em meu emprego na MGI  disse Laurel enquanto arrumava as flores no vaso.  No me sa muito bem na empreitada. Ns dois sabemos disso.
 Voc pode aprender.
 Sim, mas no creio que valha a pena continuar, por isso decidi me demitir.
Brett quase suspirou alto de alvio. A tenso desapareceu como em um passe de mgica. Os msculos relaxaram. Ainda bem que ele j havia comprado um anel de noivado. Bastaria subir e apanh-lo no cofre.
 Voc tomou a deciso certa.
 Voc acha?  Laurel perguntou, surpresa.
 Sim. No h razo para voc continuar trabalhando, agora que o beb estava para nascer.
 Mas eu quero continuar. Brett pestanejou.
 O qu? No estou entendendo.
 Vou trabalhar com Rene. Ela me convidou para ser sua assistente e sugeriu que eu fizesse um curso.
O que Laurel estava dizendo no fazia sentido. Por que ela deveria continuar trabalhando se eles iriam se casar?
 E o beb?
 Oh, eu s farei a matrcula quando o beb estiver em condies de ficar sem mim por algumas horas.
Brett queria apoi-la em seu propsito de independncia, mas tambm queria que ela se dedicasse ao filho em tempo integral.
 Gosta tanto assim de decorao?
 No s gosto como acho que tenho condies de fazer um bom trabalho.
Talvez no fosse o que Brett queria, mas ele seria incapaz de impedir que Laurel realizasse seu sonho. Jamais a vira to entusiasmada antes.
 Eu tenho certeza.
 Obrigada. Tambm tomei outra deciso, Brett. Acho que seria bom se eu me mudasse. Dessa forma, ns dois descobriremos como nos sentimos...
Brett enrijeceu.
 No precisamos ficar longe um do outro.
 Estou falando de alguns metros, no de quilmetros. Estou me referindo  casa de Henry.
O instinto de defesa de Brett se colocou em prontido. Sem perceber, ele protestou;
 De jeito nenhum. Laurel estreitou os olhos.
 O que disse?
 No vou permitir que voc saia daqui e v morar com Henry.
  No tenho nenhum plano de morar com ele. Vou alugar sua casa de hspedes. Ser mais prtico, uma vez que vou decorar a residncia.
 Voc no vai decorar a casa de Henry.  Ele daria um jeito de encontrar um curso que a obrigasse a se dedicar s lies em perodo integral. Faria qualquer coisa para impedir Laurel de sair de sua casa. Porque ela lhe pertencia. Seu velho amigo no o venceria daquela vez.  Posso cobrir a oferta que ele lhe fez.
 Voc no entendeu. No se trata de voc nem de Henry.
 Sim, eu entendi. Trata-se de voc e de Henry.  Brett apertou os punhos ao sentir que estava perdendo Laurel. Por mais que ela tivesse afirmado que seu passado no lhe importava, Laurel no era diferente das outras mulheres que ele conhecia que davam mais valor ao ter do que ao ser.  Voc se deu conta de que um casamento com Henry Davenport lhe traria maiores vantagens.
 Casar com Henry seria como viver na Disneylandia, eu suponho.  Laurel deu uma risada.  Divertido durante algum tempo. Depois voc estaria ansioso para prosseguir viagem ou voltar para casa.
 No estou brincando. J contou a sua me? Ela ficar extasiada com a novidade.
Laurel apoiou as mos no quadril e estreitou os olhos.
 Depois de tudo que passamos,  isso que pensa de mim?
 Foi voc quem se voltou para Henry.
 No. Estou fazendo isso por ns.
Mas Brett no acreditava no que Laurel estava dizendo.
 O dinheiro de Henry...
 Dinheiro no  o mais importante  Laurel o interrompeu, plida e trmula.
Ela afirmava isso, mas o motivo que a levara a deixar Chicago para procur-lo em Portland estava relacionado com falta de dinheiro.
A idia de perder Laurel era insuportvel. Fitou-a por um longo momento. Ao v-la empalidecer, arrependeu-se. No queria feri-la. Por outro lado, ele tambm estava ferido. Era a segunda vez que caa na armadilha de Laurel.
 Voc est com cime.  O tom era calmo, no zangado como Brett esperava que seria aps o longo silncio que os separou. Parecia conter compaixo. Mas ele no queria a piedade de Laurel.  E continua a ser aquele menino assustado que espiava pelas janelas pra saber como viviam as pessoas do outro lado. O que voc nunca percebeu foi que era melhor do que eles.
A decepo de Laurel era evidente, mas Brett no fez nada para se justificar.
 Sinto pena de voc, Brett Matthews  Laurel continuou.  Voc poderia ter qualquer coisa que quisesse no mundo, mas continua a se fixar apenas no que no pode ter. Dinheiro e tradio no  tudo. Eu estava comeando a acreditar que havia uma chance de formarmos uma famlia, mas me enganei.
No. Foi ele quem se enganou. E por seu erro, perderia o que mais lhe importava no mundo: seu filho. Um n fechou a garganta de Brett.
 Voc no consegue amar a si mesmo. Como poderia amar Jnior e a mim?
 Nunca disse que te amava.
 No, voc nunca disse. Quanta nobreza de sua parte!  Laurel ergueu o queixo e encarou-o.  Pois eu te amei, Brett. Ou, ao menos pensei que te amei.
Uma parte de Brett quis tomar Laurel nos braos e nunca mais solt-la. Mas a outra parte, mais racional, no acreditou em suas palavras.
 Mas o amor nem sempre  o bastante.  Laurel declarou com um fio de voz.  Prefiro viver na pobreza do que permitir que o dinheiro conduza meus passos. Ao menos isso eu aprendi. E a ltima coisa que quero  que voc ensine a meu filho esses valores errados, como meu pai fez comigo.
O anel foi retirado do dedo e entregue na mo de Brett.
 Voc sabia que era uma jia? Que meu zircnio era, na verdade, um diamante?
Brett olhou para o anel sem entender.
 Por que est me dando esse anel?
 Porque voc precisa de dinheiro muito mais do que eu.
Laurel saiu batendo a porta e ligou para Henry. Em poucos minutos ele estava de volta e sem dizer nem sequer uma palavra a Brett, ajudou-a com a bagagem.
Brett se sentiu humilhado. Tantos anos o separavam da infncia e da adolescncia, mas ele continuava inferior a Henry, seu ex-melhor amigo.
Mas, afinal, para que serviam amigos como Henry? E Laurel? Parecia incrvel que a tivera a seu lado e que quase acertaram um futuro juntos. De qualquer forma, suas vidas no se separariam por completo por causa de Jnior. Porque, custasse o que custasse, ele faria parte da vida de seu filho.
Brett olhou para a porta. No dia seguinte, mandaria trocar o segredo. Depois olhou para a sala e no suportou o vazio. Ergueu a mo para apagar a luz e ela ficou suspensa no ar. Havia marcas da presena de Laurel por toda parte. Ele adorara seu bom gosto em decorao. Agora, porm, no suportaria continuar ali.
Algum tempo depois, Brett subiu para o quarto, determinado a continuar vivendo sua vida como antes. Nada o impedia de continuar encontrando prazer nas leituras sobre o beb, nos pratos que aprendera a preparar, na vontade de ficar mais em casa do que no escritrio. Com a diferena que agora ficaria sozinho.
Encontrou um chinelo de Laurel cado na escada. Ela no deveria ter notado. Recolheu-o e levou-o ao quarto dela. Isto , ao quarto de hspedes. No havia sequer um sinal de que Laurel o havia usado durante meses. Abriu o armrio e s encontrou cabides vazios. Deixou o chinelo na prateleira do fundo e estava saindo quando algo em cima da cmoda lhe chamou a ateno. A caixinha de msica que comprara em Reno.
Ele havia surpreendido Laurel admirando-a na lojinha da capela e comprou-a sem Laurel perceber para lhe dar o pequeno presente como uma lembrana.
Mal podia acreditar que Laurel a tivesse guardado todo aquele tempo. E tambm a aliana que lhe dera.
Laurel deixou-lhe duas lembranas da aventura que viveram em Reno, mas levou a mais preciosa consigo: Jnior.
Brett girou a chave da caixinha e se recordou de Laurel entrando na capela para casar com ele enquanto ouvia a msica. Em breve ela estaria se casando com Henry.
No!
Se quisesse se casar com Henry, por que ela o teria procurado em primeiro lugar? E se Laurel queria dinheiro, por que lhe deu o anel de diamante?
Respirou fundo. Ele havia se enganado durante todo tempo. Laurel s estava seguindo os ditames de seu corao e perseguindo seus sonhos. Queria ser uma boa me e no repetir o procedimento das mulheres de sua famlia. Ela lhe havia confessado isso e ele no a ouviu. Isto , ouviu com os ouvidos, mas no com o corao.
No era de estranhar que Laurel no quisesse aceitar seu pedido de casamento. Nem antes nem agora. Ele lhe ofereceu dinheiro, conforto e proteo. Ele lhe ofereceu tudo, menos ele mesmo.
Laurel at mesmo lhe declarou seu amor. Ela o amava. E ele, certo de que era mentira, no respondeu.
O peso do arrependimento lhe caiu sobre os ombros. Ele havia sido um tolo. Ao se prender s chamadas injustias do passado, estava desprezando no apenas o presente, mas o futuro. Tudo que ele queria era ser aceito e amado. Laurel lhe deu esse tesouro e ele no percebeu.
Ao tornar a girar a chave da caixinha de msica, Brett sentou-se no cho. Ele havia acusado Laurel de ser igual  me quando ele se mostrara igual ao pai. Porque um pai no devia apenas cuidar do sustento da famlia, mas de lhe dar amor e apoio.
Como pde ser to cego? Nenhum dinheiro comprava o que era mais importante: o amor. E agora, como faria para mostrar a Laurel que havia aprendido a lio?
CAPITULO XI
Pela primeira vez em anos, Brett no tinha um esquema, no tinha uma estratgia em mente. Apenas um pensamento o dominava: precisava ver Laurel. Aquela noite. No importava que fosse tarde. No conseguiria esperar at a manh seguinte.
Diante da propriedade dos Davenport, digitou o cdigo de segurana que ainda guardava na memria e que no havia sido modificado porque os portes lhe deram passagem em poucos segundos. Olhou para o imenso e bem cuidado jardim, para a casa onde viveu com sua me, em cima da garagem, e se deu conta da sorte que teve e que no soube reconhecer, sempre obcecado com a ideia de morar na casa dos donos.
Apertou a campainha e aguardou. Uma senhora de meia-idade, provavelmente a governanta, o atendeu.
 Gostaria de falar com Laurel Worthington, por favor.
 A srta. Worthington est dormindo  a mulher respondeu e bateu a porta na cara de Brett.
No foi a recepo que ele esperava, mas no estava disposto a desistir. Tornou a tocar. Silncio. Insistiu at que, por fim, o motorista que ele conhecia desde a infncia o atendeu.
 Boa-noite, Brett.
 Voc sabe o que eu estou fazendo aqui, Frank. No preciso lhe dizer.
 Infelizmente, no posso permitir sua entrada.
 Deixe-me falar com Henry, ento.
 Desculpe, mas ele j se recolheu.
Brett pensou em forar a entrada, mas estava ciente de que isso s complicaria sua situao.
 Henry nunca se deita antes da uma da manh.
 Sinto muito, Brett  o motorista murmurou e Brett sentiu que ele estava sendo sincero.  Sinto muito mesmo.
Frank estava velho. Brett pensou na poca que eles lavavam juntos os carros e conversavam como pai e filho. Em um sbito impulso, abraou-o.
 A rvore continua no mesmo lugar  Frank disse baixinho.
Antes que Brett pudesse responder, a porta foi fechada. Mas Frank s poderia estar se referindo ao velho carvalho em que ele costumava subir quando criana.
Por Laurel, ele faria qualquer coisa.
Ela no conseguia dormir.
Henry a colocara em uma das sutes destinadas aos hspedes e ela estava desfrutando de todos os confortos de um hotel de luxo. Mas fosse a energia de Jnior que no parava de se mexer ou os pensamentos sobre Brett, o fato era que ela no conseguia conciliar o sono.
No queria acreditar que havia acabado. Ao mesmo tempo, no tinha foras para tentar viver de acordo com a proposta de Brett. Obcecado por dinheiro e poder, ele no conseguia enxergar o que realmente importava na vida.
No queria chorar. Ele no merecia suas lgrimas.
 Dar tudo certo, meu bem  Laurel disse ao beb.  Eu lhe prometo.
Laurel estava confiante em seu sucesso. Somente depois que se afastou de Brett, ela teve certeza de que era diferente de sua me e de sua av. Poderia ter escolhido o caminho mais fcil, de conforto e segurana, mas recusou-o.
Ela havia deixado a antiga Laurel para trs no momento que ligou para Henry. No. Antes disso. Aconteceu no instante que deu o anel a Brett.
Orgulhava-se, embora a duras penas, da distncia que havia percorrido. No era mais a herdeira mimada que aceitou ficar noiva de um homem que no amava e que aceitou participar de uma brincadeira sobre um assunto to srio e sagrado como casamento.
Um rudo lhe chamou a ateno. Parecia algum batendo na janela. Deveria ser sua imaginao.
Mas, ento, o rudo foi repetido e ela decidiu acender a luz e verificar.
Ao ver Brett, pensou que estava sonhando.
 Abra a janela  ele pediu.
 Por Deus, o que voc est fazendo?
 Preciso falar com voc.
  Ficou com maluco? Entre antes que se mate.  O ar frio da noite a obrigou a cruzar os braos para se proteger.
 No h perigo  Brett respondeu e fechou a janela.  Fiz isso milhares de vezes quando era criana.
Surpresa e curiosa com a sbita apario de Brett, Laurel o examinou. Ele ainda estava de terno como quando o deixara. A cala havia rasgado na altura do joelho. Por ele no ter trocado aquela roupa por um jeans, dava a impresso que a escalada no fora premeditada.
Uma parte de Laurel queria mandar que Brett fosse embora. Mas a outra...
 Por que no entrou pela porta como fazem as pessoas normais?
 Tentei, mas no me deixaram.
Laurel entendeu a que "eles" Brett se referiu. Henry era bom e tinha as melhores intenes, mas tambm costumava chegar s raias do exagero. Embora, daquela vez, a culpa fosse dela ao lhe dizer que nunca mais queria ver Brett.
 Eu tinha de ver voc.
 Voc j me viu. Pode ir agora.
 Por favor, Laurel.
 No posso.  Era difcil ignorar a splica, mas ela precisava pensar em si mesma e em Jnior.  No ainda. Talvez nunca.
  Sinto muito pelo que disse a voc. Por favor, deixe-me explicar.
Ao sentir sua mo entre as mos de Brett, Laurel respirou fundo e puxou-a antes que pudesse fraquejar.
  tarde demais.
 No pode ser tarde demais.
Laurel no respondeu. Estava perturbada demais pelas emoes que a assaltavam.
 Eu estava errado. Voc tentou me dizer a verdade e eu no quis ouvir. No soube lidar com as emoes que me dominaram. Mas uma certeza eu tenho, Laurel. No quero perd-la. No posso perd-la.
A angstia de Brett a comoveu, mas ela se obrigou a endurecer o corao.
 Voc me perdeu? Voc nunca me teve.  Laurel sabia que estava mentindo, mas insistiu:  Para sua informao, no preciso de voc.
 Eu sei disso  Brett admitiu.  Voc  perfeitamente capaz de cuidar de si mesma. Sempre foi. Mesmo antes de chegar a Portand. Poderia ter escolhido a sada mais fcil quando seu pai perdeu todo seu dinheiro. Poderia ter se casado com o primeiro sujeito que surgiu a sua frente. Mas no fez isso. Voc se levantou e continuou caminhando. No cruzou os braos e chorou, mas comeou uma vida nova para voc e para o beb. Enquanto eu... Toda minha vida quis ser algum como Henry. Para ser franco, o prprio Henry. Mas aprendi a pensar diferente nas ltimas horas.
Uma luz de esperana brilhou diante de Laurel.
 Sei que voc no precisa de mim  Brett continuou , mas eu preciso de voc.
O tempo parou. O nico som que Laurel conseguia ouvir eram as batidas de seu corao.
Brett segurou sua mo e, dessa vez, ela no a retirou.
  Estou sendo sincero, Laurel. Preciso de voc. Pensava que sabia tudo ao lhe dar lies sobre finanas, mas o que aconteceu foi o contrrio. Voc me ensinou que dinheiro no  o mais importante.  Brett se deteve por um instante.  Naquele dia, quando me procurou no escritrio e eu disse que queria me casar com voc, eu s estava pensando no beb. Por causa do que meu pai fez comigo. Porque no queria que meu filho crescesse me odiando como odiei meu pai. Foi por s conseguir enxergar isso a minha frente que eu a pressionei. Porm,  medida que o tempo foi passando e que nossa convivncia se estreitou, eu percebi que no era apenas Jnior que me fazia pensar em casamento. Tive medo. Pensei que voc jamais fosse me amar. No fundo, eu continuava achando que era inferior aos outros. Ento tentei ignorar meus sentimentos.
Os olhos de Laurel encheram de lgrimas.
 Oh, Brett. Eu nunca liguei para isso.
  Eu sei.  Brett levou as mos delicadas aos lbios e beijou-as.  Essa  uma das razes que me fazem te amar tanto.
O corao de Laurel bateu ainda mais forte. O que estava acontecendo era mais do que ela havia sonhado.
 Voc me ama?
 Muito e quero me casar com voc. No porque  o certo nem porque Jnior precisa de um pai, mas porque eu te amo. No precisa existir um beb para haver uma famlia. Ns dois j somos uma famlia.
Laurel engoliu em seco. O boto de esperana havia se transformado em uma linda rosa.
 No sou perfeito, mas farei tudo que puder para ser um bom marido e pai. Confio plenamente em voc. No quero acordos pr-nupciais. Ns dois seremos scios e companheiros tanto em casa quanto no trabalho. Voc nunca precisar se preocupar em ter seu prprio dinheiro porque o que tenho ser nosso. No questionarei sua forma de us-lo. Voc ser independente.
Laurel reconhecia o esforo de transformao de Brett e seu corao transbordou de jbilo. Agora Brett sabia que dinheiro no era tudo. Sentia vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo.
 Eu te amo, Brett.
 Eu tambm te amo, Laurel.
 Voc  mais do que eu sempre esperei que fosse um marido ou um pai. Voc me ajudou a atingir meus objetivos e est me dando tudo que eu poderia querer. A noite que tivemos em Reno foi mgica. O que temos agora  mais do que magia,  uma bno.
Brett beijou cada um dos dedos de Laurel.
 Mas ao mesmo tempo que quero ficar com voc, ainda preciso provar que sou capaz de cuidar de minha prpria vida.
 Voc no precisa me provar nada.
 Mas preciso provar a mim mesma  Laurel confessou.  Foi fcil fingir que consegui minha meta enquanto estava sob sua proteo. Voc compreende?
 Compreendo  Brett respondeu.  Eu espero o tempo que voc quiser. Laurel sorriu.
 Esteja preparado. Porque assim que eu me sentir segura, pedirei sua aliana.
Brett sentiu a euforia se apoderar de seu peito.
 Laurel Worthington, voc est me propondo casamento?  ele perguntou.
Incapaz de acreditar no que acabara de fazer, Laurel concordou com um gesto de cabea.
 Eu aceito  Brett respondeu com um sorriso. Feliz, Laurel decidiu continuar com o jogo.
  Como no havia planejado este desfecho, no trouxe um anel para selar o noivado.
Brett tirou do bolso o anel de diamante que Laurel ganhara em Reno e colocou-o em seu dedo.
 Espero que este sirva por agora. O anel que eu comprei est em nossa casa.
Nossa casa. Aquelas palavras soaram como msica nos ouvidos de Laurel.
 Eu te amo.
 Eu tambm te amo.  Brett abraou-a e eles trocaram um longo beijo. O beb mexeu nesse momento e Brett percebeu.
 Voc acha que ele est tentando nos dizer alguma coisa?
 Feliz Natal, querida.  Brett se aproximou de Laurel e beijou-a.
  Eu te amo.
 Eu tambm te amo.
EPLOGO

Brett estava segurando a filha com imenso orgulho e acariciando sua delicada face com a ponta do dedo.
 Feliz Natal, minha pequena Noelle.
Laurel sorriu ao v-los. Nunca fora to feliz em sua vda. Tinha um marido maravilhoso e uma filha perfeita e saudvel.
 Ela est quase dormindo  murmurou com os olhos brilhantes de felicidade.
 Ela teve um dia atribulado. E voc ainda mais
 disse Brett, referindo-se ao parto que havia acontecido algumas horas antes.  Isto a ajudar a descansar.  Brett girou a chave da caixinha de msica com os dois pombinhos.
Laurel no havia entendido por que Brett insistira que ela levasse a caixinha de msica para a maternidade. Agora ela sabia.
- No acha que a Cantiga de Ninar de Brahms seria mais apropriada do que a Marcha Nupcial de Mendelsohn?
O sorriso afetuoso de Brett fez o corao de Laurel transbordar de amor.
 Noelle no saber dizer a diferena. Algum abriu ligeiramente a porta e eles pararam
de falar, curiosos.
 Ho, ho, ho, Feliz Natal! Estava verificando minha lista e percebi que havia pulado uma garotinha que deu um jeito de chegar ao mundo neste dia glorioso.
Assim que Papai Noel olhou para Brett e viu a criana em seus braos, colocou no cho o saco de presentes.
  ela? Laurel sorriu.
 Gostaria de segurar sua afilhada, tio Henry? Henry se aproximou.
 No quero acord-la.
 Ela no acordar  Brett garantiu.
Henry tirou imediatamente a barba falsa e pegou Noelle no colo.
 Cuidado com a cabecinha  Brett alertou.
 No precisa me lembrar  disse Henry.  Tive uma aula sobre recm-nascidos.
Laurel e Brett trocaram um olhar.
 Afinal, algum tem de tomar conta de minha afilhada quando vocs quiserem sair.  Henry embalou a pequena Noelle.  Voc  a criatura mais linda deste mundo.
Brett sorriu.
 Ela se parece com a me.
 Bastante  Henry concordou e tornou a olhar para a afilhada.  Seus pais fizeram um bom trabalho. Quando voc crescer, Noelle, ns nos divertiremos muito. Vou lev-la a Nova York para fazer compras na Tiffan/s, na FAO Schwartz e tomaremos ch no Salo Russo.
Brett suspirou. Mas antes que dissesse algo, Laurel lhe fez um sinal para que se calasse.
  Noelle tem sorte por voc ser seu padrinho, Henry.
  Noelle  Henry repetiu, emocionado.  Um nome perfeito para uma menina nascida no dia de Natal. Como eu disse a sua me que deveria ser.
Henry piscou para Laurel e colocou Noelle no cestinho. Depois olhou para os felizes pais.
 Papai Noel pediu que eu lhe fizesse um favor porque estava muito ocupado esta noite.  Henry tirou dois presentes do saco e entregou-os a Laurel e Brett. Em seguida, tirou um urso com um lao de cetim vermelho no pescoo.  Este  para Noelle. No bolso dele, h um outro presente.
Diante do olhar inquiritivo de Laurel, o prprio Henry apanhou o pequeno estojo e abriu-o.
 Este vocs tero que guardar at Noelle crescer o suficiente para no coloc-lo na boca.
Brett se ps a rir.
De onde estava, Laurel no conseguia ver. Seriam brincos? Um anel?
 O que ?
 Dados de ouro  Brett respondeu.
 Dados?  Laurel estranhou.
Henry deu uma piscada e olhou para a afilhada adormecida no cesto.
 Um dia, minha princesa, seu tio Henry lhe contar como um jogo de dados uniu seu pai e sua me e a trouxe ao mundo.


FIM


